A manhã chegava e me vesti para caminhar, não contava com a garoa fina de uma primavera outonal, com o vento gritando pelas folhas das árvores, cujas gotículas acabavam se espalhando pelo ar.

Desisti do meu caminhar, e sentada junto à janela, tomei uma caneca de café, viajando no meu sonho da madrugada.

Estava eu ali nos meus 62 anos atuais, mas via a Márcia ainda como criança.

Observando à uma distância pequena, comecei a caminhar com aquela criança que tão bem conhecia.

A casa na Rua Heitor Penteado, um conjunto de 6 casas geminadas, que estranhamente eu via como era na época, mas sabia como ela é atualmente – é a escadaria do metrô Vila Madalena.

Imagens surgiam como se fossem flashes, em várias velocidades.

Eu atravessava a rua, ia à padaria da esquina, e comprava pão doce com creme em cima – que sabor de alegria me cercava naquele momento!

Já maiorzinha, ia ao posto de gasolina, no mesmo quarteirão, para comprar gasolina para remover a cera dos tacos das salas….eu amava fazer isso, era uma farra para mim, mas creio que não era tão bom para minha mãe.

Meus irmãos, mais velhos já estavam na escola, e minhas brincadeiras acabavam se resumindo em brincar de cabana, de açougue, e na piscina de lona, que ganhei em um Natal – tudo em um ‘imenso’ quintal de 5×3, que mais me parecia um país das maravilhas.

Por volta das 17 horas eu tinha que tomar banho, e ficar bonitinha para aguardar meu pai chegar… as calças rancheira azul e vermelha se alternavam para que eu ficasse bonitinha… A etiqueta Lee, do bolso dianteiro, era um enigma para mim já que eu não sabia ler.

Após nosso jantar, quase sempre íamos à casa de minha avó na Bela Vista, e o trajeto era muito rápido, mas repleto de imaginações que passavam na minha cabeça – uma viagem por semáforos, buzinas e faróis dos carros.

Lá, sempre era uma minifesta, regada a bolo caseiro, à omelete e pão italiano, que, invariavelmente, meu tio comprava. Eu amava molhar o pão no molho de tomates que minha avó, e só ela, sabia fazer!

Que delícia eram aqueles momentos; parecia que ficava lá por bastante o tempo, mas, a minha cabeça, sem noção, não percebia que decorriam apenas uns 30 minutos…

E eu ia crescendo e, aos 6 anos, fui para a escola. Entretanto, uma mononucleose me fez sair antes do término daquele ano.

Fiquei com minha mãe em São Vicente, por um período pequeno, mas enorme para mim…. Meus avós moravam lá e isso facilitava nossa permanência.

O tratamento era a aplicação diária de 3 injeções doloridas, e eu caminhava com bastante dificuldade até a praia com minha mãe…. As dores nos gânglios eram grandes, mas, aos poucos, fui melhorando e, em menos de um mês, já me sentia muito melhor e animada.

Nossos almoços eram feitos na pensão do Sr. Luís, já que minha avó trabalhava fora, e voltava para almoçar conosco.

O cheiro da comida, e a toalha de plástico que vez ou outra grudava em meus antebraços, me causavam um certo enjoo… Aliás, sou enjoada até hoje com cheiros… ahahaha

E, finalmente, me vi caminhando para a escola. Agora, eu já estava no primeiro ano e podia ler as placas das ruas, os gibis, e os roteiros dos ônibus… Quanto aprendizado!

Na sequência do meu encontro comigo mesma, vi as ruas do Sumaré até chegar na escola. Na lancheira de couro comprada em Águas de Lindoia, ia uma garrafa de água com limão, e um pão francês com tomate, queijo e orégano. Um lanche dos Deuses!

A forma simples que a vida se apresentava, a falta dos perigos hoje tão temidos, tudo parece ainda tão em mim….

A minha menina foi crescendo e vivenciando tantos momentos, amigos e alegrias, que, talvez o sonho não tivesse capacidade de ser tão longo, mas fato é que acordei com uma doce sensação de prazer e, quando consegui vivê-lo novamente junto à janela, com meu café, tive a nítida certeza de que aquela menina que eu era ou fui, ainda coabita em mim.

Ela continua achando a vida bela, frágil, mas forte, grandiosa e valiosa demais.

Ela continua dentro da minha calça rancheira, com o perfume de Alfazema, e com o sorriso de quem somente quer e deseja o bem

Torço agora para que a menina continue a caminhada pelos sonhos sem fim, para que eu tenha a possibilidade de estar com ela novamente, muitas e muitas vezes mais…❤️

Fonte: Márcia Dip Massariolli

(JA, Out21)