Um estudo realizado pela Universidade da California, em São Francisco, sobre Alzheimer e Demência, e publicado no ‘The Journal of the Alzheimer’s Association’, em 20 de julho de 2020, acompanhou quase 1800 velhos – na faixa dos 70 anos – por até dez anos, e concluiu que os que mantiveram os quatro sentidos – audição, visão, toque e olfato, têm até metade do risco de desenvolver demência, em relação aos que tiveram declínio sensorial. No início do estudo, nenhum participante registrava sinais de demência, mas 18% (328) desenvolveram essa condição com o passar do tempo.

A demência apareceu menos entre aqueles cujos níveis sensoriais estavam na faixa mais alta. 12%; passou para 19% no nível intermediário; e subiu para 27% no grupo do nível mais baixo – com maior perda de olfato, audição, visão e tato.

As pesquisas anteriores tinham se voltado para a ligação entre a demência e os sentidos individuais, enquanto os pesquisadores da UCSF foram atrás dos efeitos aditivos de várias deficiências na função sensorial.

‘As deficiências sensoriais podem ser devido à neuro degeneração subjacente, ou aos mesmos processos de doença que afetam a cognição, como o derrame’, disse a doutora Willa Brenowitz, Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da UCSF. ‘Alternativamente, deficiências sensoriais, particularmente audição e visão, podem acelerar o declínio cognitivo, impactando direta ou indiretamente a cognição, aumentando o isolamento social, reduzindo a mobilidade, e piorando a saúde mental’.

As várias deficiências foram analisadas, mas ficou demonstrado que a perda de olfato tem uma associação mais forte com a demência do que o tato, a audição ou a visão. Os participantes cujo cheiro diminuiu em 10 por cento, tinham uma chance 19 por cento maior de demência, contra um risco aumentado de 1 a 3 por cento para declínios correspondentes na visão, audição e tato.

‘O bulbo olfativo, que é crítico para o olfato, é afetado bem no início do curso da doença’, disse a doutora Brenowitz para a repórter Suzanne Leigh, da UFCS. ‘Acredita-se que o cheiro pode ser um indicador pré-clínico de demência, enquanto que a audição e a visão podem ter um papel mais importante na promoção da demência’.

Os 1794 participantes foram recrutados de uma amostra aleatória de adultos elegíveis para o Medicare no estudo ‘Saúde, Envelhecimento e Composição Corporal’. O teste cognitivo foi feito no início do estudo, e repetido a cada dois anos. A demência foi definida por testes que mostraram uma queda significativa dos escores basais, uso documentado de um medicamento para demência, ou hospitalização por demência como diagnóstico primário ou secundário.

O teste multissensorial foi feito no terceiro ao quinto ano, e incluiu audição (aparelhos auditivos não eram permitidos); testes de sensibilidade ao contraste para a visão (óculos eram permitidos); teste de toque em que as vibrações eram medidas no dedão do pé; e olfato, envolvendo a identificação de odores distintos, como diluente, rosas, limão, cebola e terebintina.

Os participantes que permaneceram livres da demência geralmente tinham cognição superior no momento da inscrição, e tendiam a não ter deficiências sensoriais. Aqueles na faixa intermediária tendiam a ter vários comprometimentos leves ou um único comprometimento de moderado a grave. Os participantes com maior risco tinham vários prejuízos de moderados a graves.

A doutora Kristine Yaffe, dos departamentos de Psiquiatria e Ciências do Comportamento, Epidemiologia e Bioestatística e Neurologia da UCSF, destacou que mesmo deficiências sensoriais leves ou moderadas em vários domínios, foram associadas ao risco aumentado de demência, indicando que as pessoas com função multissensorial deficiente integram um grupo de alto risco, que pode ser alvo de intervenção, antes do início da demência.

Os 780 participantes com boa função multissensorial eram mais propensos a serem mais saudáveis do que os 499 participantes com função multissensorial ruim, sugerindo que alguns hábitos de vida podem desempenhar um papel na redução dos riscos de demência. O primeiro grupo tinha mais probabilidade de ter concluído o ensino médio (85 por cento contra 72,1 por cento), tinha menos diabetes (16,9 por cento contra 27,9 por cento), e era marginalmente menos provável de ter doenças cardiovasculares, hipertensão e derrame.

Num resumo rasteiro, mas poético, os que foram capazes de identificar cheiros como o de aguarrás, diluentes, limões e rosas, estavam mais longe da demência.

Parafraseando Cartola, as rosas não falam, mas quem é capaz de lhes sentir o perfume entendem melhor as coisas – inclusive poemas.

Fonte:  Paulo Markun   |  FSP

 

(JA, Ago20)