Um grande tabu para a sociedade é falar sobre a sexualidade dos idosos. E tudo fica mais difícil quando se trata de um gênero não binário, ou seja, aquele que não é reconhecido como homem ou mulher. Mas, assim como nas outras fases da vida, a etapa da velhice é um contínuo desenvolvimento, e a expressão dos sentimentos se faz necessária e importante, logo, todos devem ser respeitados em sua totalidade.

Com o passar dos anos, as mudanças no corpo podem interferir no aspecto sexual, social e psicológico da pessoa idosa, e isso é natural. Então, o olhar para a sexualidade muda e, com isso, a forma de se relacionar também. Por isso, é preciso descobrir, em primeiro lugar, a si mesmo, entender quais são as próprias necessidades e como lidar com as limitações do momento para, então, sentir e dar prazer sexual.

Mas, socialmente já existe um olhar preconceituoso que, além de negar o prazer do corpo velho, faz uma separação entre sexo e idosos, como se o sexo e o desejo sexual das pessoas idosas desaparecessem magicamente, e todo o processo relacionado à isso, fosse indiferente agora.

Como já foi dito, existe muito preconceito em relação a esse tema, por isso é importante abordar e explorar cada vez mais, possibilitando a desconstrução desse olhar cristalizado, abrindo caminho para a ressignificação de si e do outro. E isso vale para jovens e adultos também pois, se tudo der certo, um dia todos serão velhos.

Quando fiz meu TCC, que falava sobre a reinserção de mulheres viúvas idosas na sociedade, a sexualidade e o sexo foram temas abordados naturalmente por elas. Após muitos anos de obrigações matrimoniais e pouco conhecimento do próprio corpo, elas descobriram novas possibilidades e formas de viver e experienciar a vida e o sexo. Algo que ficou muito evidente nesse estudo foi que elas sentiam que a qualidade importava muito mais que a quantidade, já que, agora, se sentiam livres para explorar o próprio corpo e sentir prazer com ele.

Alguns fatores físicos como, por exemplo, disfunção erétil, andropausa (caracterizada pela queda do hormônio testosterona nos homens), diminuição da lubrificação feminina, menopausa (caracterizada pela queda do hormônio estrógeno nas mulheres), entre outros, impactam no corpo e, consequentemente, na qualidade do sexo. Por isso, precisam de cuidado, e um olhar especializado para que essas pessoas cuidem de si e possam aproveitar a vida.

Por outro lado, o imaginário popular acaba por ‘decretar algumas regras para o bom convívio social’. Quem nunca ouviu: ‘minha mãe só fez sexo para ter filhos’? E olha que, nesse caso, não se trata de pessoas idosas necessariamente; é um olhar voltado para a mulher.  Com avós e outras pessoas mais velhas, sequer cogitam a possibilidade: ‘é feio, é nojento’, dizem.

Você pode imaginar como fica o psicológico dessas pessoas? Elas precisam lidar com inseguranças relacionadas ao próprio corpo – será que sou bonita o suficiente? Qual será o efeito que minhas rugas, estrias, e quilinhos a mais, terão? –  ninguém vai me desejar pois a juventude passou. A partir disso, acontecem as tentativas de rejuvenescimento milagroso, com o uso de cremes e cirurgias estéticas.

No caso dos homens, a relação é direta com a virilidade, pois se eles não ‘derem conta’, ou rejeitarem sexo, sua virilidade será questionada, como se fossem uma máquina, pronta para fazer sexo o tempo todo.

Além do medo e da ansiedade, muitos outros sentimentos são despertados, e acabam por impactar a vida das pessoas idosas e, não raro, vêm a aceitação do que a sociedade impõe, em detrimento aos seus reais desejos.

Mas, afinal de contas, o que é o sexo para as pessoas idosas? Antes de pensarmos em penetração, que faz parte, existe um caminho a ser percorrido. O companheirismo, a sensação de segurança, olhares que dizem tudo, toques, demonstrações de carinho, respeito, entre muitas outras coisas. Vai depender de cada pessoa, da relação consigo, e com o outro. O importante é sentir-se bem em relação ao próprio corpo e sua sexualidade.

Mas, uma ajuda é sempre bem-vinda! A partir da manutenção e da orientação dos cuidados físicos, a medicina propicia uma melhor qualidade de vida para essa população. E, para dar conta de todos esses sentimentos, um psicólogo é fundamental.

Para finalizar o texto, mas não encerrando o assunto, deixo aqui a frase do cantor Lulu Santos

“Consideramos justa toda forma de amor.”

Fonte: Michelle Perez Alves Xavier, Psicóloga, CRP 06/129104

 

(JA, Mai21)