Estigmas, estereótipos e preconceitos associados ao sexo na maturidade

Vocês repararam que vários casais de mais de 70 anos, apenas com roupas íntimas, protagonizaram cenas sensuais nas propagandas do Dia dos Namorados? Acharam libertador enxergar corpos diferentes daqueles que são maioria nas propagandas sempre tão fartas de corpos jovens e perfeitos?

A moda, a publicidade, e a indústria da beleza, parecem ter descoberto que todos nós já somos ou seremos velhos amanhã, e que queremos amar, namorar, e ter tesão em todas as fases das nossas vidas.

Os mais velhos, nos últimos anos, deixaram de ser invisíveis, e de ter vergonha de mostrar seus corpos e desejos. As propagandas estão fazendo sucesso porque retratam a transformação que está acontecendo na sociedade brasileira. Estamos começando a tirar os óculos da velhofobia, que só enxerga feiura, decadência, miséria e doença na velhice, para enxergar beleza, alegria, tesão e prazer nessa fase da vida.

No entanto, vale o alerta de uma psicóloga de 65 anos: ‘De repente, todo mundo passou a achar que os velhos estão na moda. O cabelo branco, que era considerado horrível, passou a ser lindo. Agora a obrigação é deixar o cabelo branco – não pode mais pintar, tem que mostrar que é velha. Passou a ser fashion respeitar a diversidade, e colocar cotas de velhos nas propagandas e desfiles de moda, para ser politicamente correto. O mercado não é idiota, quer lucrar cada vez mais. Ele descobriu que os mais velhos também têm dinheiro, e que eles ainda têm tesão, namoram e gostam de sexo’.

É verdade: os mais velhos namoram, fazem sexo, e sentem muito tesão pela vida. Mas, por que a recorrência preconceituosa de usar o advérbio ‘ainda’ quando se fala de amor, sexo e prazer na maturidade?

Há mais de 30 anos venho mostrando que a velhice pode ser, e é, uma fase de conquistas, alegrias, descobertas, realizações, prazeres e aprendizados. É o momento de deixar florescer ‘o tesão da alma’, como dizem as mulheres mais velhas que tenho pesquisado: ‘É a primeira vez que eu posso ser eu mesma, nunca fui tão livre, nunca fui tão feliz; é o melhor momento de toda a minha vida. É uma verdadeira revolução’.

É o que eu chamo de ‘revolução da bela velhice’. Se, antes, eu também tinha pânico de envelhecer, e só conseguia enxergar feiura, doenças e perdas no meu próprio processo de envelhecimento, hoje meu olhar está mais focado na alegria, no aprendizado e no tesão de viver, que só aumentam com o passar do tempo.

Como mostra um médico de 72 anos, a intimidade e a confiança adquiridas com o tempo, permitem novas formas de dar prazer a si mesmo e à esposa. Apesar de a frequência sexual ter diminuído bastante, se comparada à da juventude, ele relata que sente muito mais tesão na relação com a esposa:

‘O maior problema não é a idade, mas o tempo do relacionamento. É quase impossível manter o tesão em um casamento de meio século. Apesar de ser um dinossauro em extinção, comprei um vibrador e uma lingerie sexy para minha mulher no Dia dos Namorados. É importante quebrar o tabu de que os velhos não têm tesão. Embora o corpo mude com o tempo, não podemos parar de dar risadas, namorar e brincar. Meu tesão não está só no sexo, mas principalmente na vontade, no prazer e na alegria de estarmos juntos. Na verdade, meu tesão hoje é mais saboroso, livre e criativo’.

Os mais velhos que ‘ainda’ têm tesão e ‘ainda’ namoram, são acusados de ‘velhos ridículos’, como revela uma empresária de 73 anos. Para ela, o maior preconceito e intolerância contra a velhice vêm das próprias mulheres:

‘Como diz minha neta, estou ficando com um rapaz mais novo do que as minhas filhas. Já ouvi das minhas filhas e de amigas que sou o exemplo perfeito da velha maluca, caduca e caquética. Elas me chamam de coroa periguete, e velha ridícula. Ligo o botão do foda-se para o que elas pensam. Não tenho vergonha de sentir tesão, de namorar, e de querer desfrutar cada minuto da minha velhice. Prefiro ser uma velha ridícula a uma mulher amarga, mal-amada e infeliz, como elas são. Quando elas me xingam eu assumo: Sou uma velha ridícula, e daí?’.

Fonte: Mirian Goldenberg | FSP

(JA, Jul22)