Notei que algumas pessoas se sentem desconfortáveis e não gostam de usar a palavra velho, quando falam de si mesma. Conseguiram fazer com que até pessoas maduras tenham preconceito com a palavra e assim, em alguns casos, consigo mesmo.

Dostoievsky escreveu: ‘Não é preciso muito para matar uma pessoa, basta convencê-la de que ninguém precisa do que ela faz’. Uma vez que é certo que nossa sociedade não leu Dostoievsky, a conclusão óbvia é que este conceito era comum na Europa de sua época, o que evidencia o nosso atraso de 200 anos.

Quem inventou que velho é algo ruim nunca vestiu aquele jeans surrado que vestimos como se fosse uma segunda pele de tão perfeito e confortável, não percebe o valor de uma amizade antiga por melhores que sejam as novas. Eu troco uma caixa de Beaujolais Nouveau por um Château Margaux 1953 ou 1961, a qualquer hora.

Aos 20 anos tudo é paixão, mas só aos 40 começamos a entender o que é amor. Nenhuma menina de 20 anos chega aos pés de uma mulher de 45 ou mais. Só não pensa assim homens que não se garantem para conviver com uma mulher consciente de si mesma, da sua força, e muito mais exigente. São muitos os que não percebem a beleza nos traços de vida que carregamos em nossos rostos.  Percebi que o que chama a atenção das pessoas não é a beleza, mas o quanto elas são atraentes, e a beleza não é necessariamente atraente.

Nem tudo que é novo é bom, assim como nem tudo que é velho é ruim. Reparem a música e a literatura, por exemplo, onde o velho e o novo coexistem sem que um seja necessariamente melhor que outro, mas ambos os lados têm muitas exceções.

Ser velho não significa que desisti de trabalhar, de ensinar e aprender, de me exercitar, e de me envolver emocionalmente. Se continuo fazendo isso não significa que tenho uma cabeça jovem, significa apenas que não desisti de viver a vida que amo, e amar a vida que vivo.

‘Pessoa madura não pode achar que velho é palavrão. Isso é loucura’.

Fonte: da crônica ‘Ser Velho’ do livro ‘Me Faço Poeta entre contos e crônicas’, de Ricardo Falcão

 

(JA, Abr21)