Muitos homens e mulheres mais velhos se queixam dos comportamentos autoritários dos filhos, que não os respeitam, fazendo com que se sintam incapazes, impotentes e invisíveis. Reclamam que os filhos acham que têm o direito de cercear a liberdade deles, que se consideram pessoas ativas, saudáveis e lúcidas.

Um advogado de 83 anos disse que o filho quer controlar sua vida amorosa.

‘Ele ameaça me interditar, diz que estou esclerosado. Acusa minha namorada de ter dado o golpe do baú. Está com inveja, pois ela é jovem e bonita. É um absurdo achar que trabalhei como uma mula a vida inteira para deixar tudo de herança para ele. É um parasita. Vou aproveitar muito bem o tempo que me resta. É ignorância, desrespeito, e preconceito, achar que não posso mais decidir o que é melhor para mim’.

Uma atriz de 79 anos não aguenta mais ‘a filha mandona’.

”Ela contratou uma cuidadora, não me deixa sair sozinha, quer que eu vá morar com ela. Quer controlar até a minha aposentadoria. Não para de me atormentar com conselhos do tipo: ‘Você não pode mais usar biquíni, parece uma velha ridícula’; ‘Não pode mais sair para dançar, é muito perigoso’; “Não pode mais beber, não pode comer besteira’. Deu-me um celular para poder me vigiar o tempo todo: é só eu sair de casa que começa a ligar de 5 em 5 minutos.

Está sempre controlando aonde vou, com quem estou. Nunca me escuta, nem pergunta o que eu quero, só me dá ordens sobre o que posso, e não posso fazer.

Com o pretexto de que está cuidando de mim, está querendo me aprisionar, implantando uma ditadura fascista dentro de casa. Tenho vontade de gritar: ‘Não sou uma velhinha gagá. Você não tem o direito de decidir como devo viver. Você não manda em mim!’. Como ela não percebe que o mais importante para a minha saúde física e mental é continuar sendo independente, como sempre fui?”

A falta de autonomia é uma espécie de morte simbólica para os mais velhos. A preocupação dos filhos pode ser expressão de cuidado e afeto, mas é preciso evitar a tentativa de cercear a liberdade de mulheres e homens lúcidos, ativos e saudáveis, que ainda são capazes de serem protagonistas da própria vida, não é mesmo?

 

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Fonte: Mirian Goldenberg | FSP

 

(JA, Mai22)