Envelhecer não é ruim, é um privilégio. Falta de sorte é morrer cedo.

O Brasil é um país jovem, tem um pouco mais de 500 anos de idade. Diferentemente das culturas dos países orientais e europeus que convivem com pessoas longevas há décadas, a preparação para envelhecer não faz parte de nossa cultura. Entretanto, não falar do assunto não impede o envelhecimento.

Longevidade é assunto relativamente recente nas conversas em família, no trabalho, entre amigos.

Políticas públicas estão sendo criadas para contemplar um público que antes não existia. A expectativa de vida era baixa, e a maioria morria cedo.

Em sociedade, estamos aprendendo a conviver com pessoas idosas, absorvendo sabedoria e experiências e respeitando suas necessidades e restrições.

Empresas descobrem um novo público consumidor e desenvolvem produtos e serviços voltados para esse novo cliente, o idoso.

No Brasil, onde envelhecer parece ser um problema, as pessoas gastam tempo planejando uma viagem de duas semanas, mas não se empenham em planejar a velhice, que pode ser uma longa e bela fase da vida.

Envelhecer não é ruim, mas um direito fundamental. Não é doença, não há perda de autonomia, salvo se houver uma enfermidade que comprometa o discernimento e o processo de tomada de decisões.

Instrumentos jurídicos existem, e outros serão criados, para assegurar nossa autonomia, e manifestar nossa vontade, quando as decadências naturais da idade se manifestarem, em maior ou menor escala.

Testamento é um desses instrumentos, ainda pouco utilizado, possivelmente em razão da crença arraigada por aqui, de que ‘testamento dá azar’. Entretanto, as circunstâncias da pandemia do Coronavírus desencadearam um sistema de urgência de cuidado com o outro, com os entes queridos, e provocou aumento de 134% no registro de testamentos.

Se você faz parte dos que não se preparam para a velhice, saiba que, quanto mais cedo o fizer, melhor. E que nunca é tarde para começar a planejar a vida, deixar de medir somente o retorno dos investimentos, e começar a avaliar o retorno de viver.

Como você vai gastar o seu tempo? Como vai pagar pela vida que gostaria de ter? Avalie como obter o maior retorno, a melhor qualidade de vida possível com o dinheiro já disponível, adicionado ao que ainda pode acumular enquanto tiver capacidade de gerar renda.

Ao planejar as finanças, os números, identifique quais serão suas fontes de rendimentos na aposentadoria, e qual o montante de despesas estimadas para esse período. Seja realista. Não acredite que será possível viver com cerca de 70% do orçamento da fase ativa. Viver bem, com qualidade de vida, sem depender da ajuda de filhos ou familiares, custa caro.

Apure qual será a renda complementar necessária para bancar essas despesas. Estime, também, a expectativa de sobrevida, a extensão, em meses, desse período da vida.

Em seguida, utilizando uma premissa conservadora de rendimento real (acima da inflação), líquido (após custos e impostos), calcule que capital será necessário acumular, durante quanto tempo, para prover a reserva que irá custear sua velhice.

Viva da melhor forma possível, desfrutando dos recursos que for capaz de acumular. E cuide primeiro de si mesmo, e depois, se possível, dos entes queridos que podem precisar de ajuda.

Um dos melhores ensinamentos que você pode deixar aos descendentes é o exemplo. Planejar a vida, as finanças, estabelecer limites e prioridades, fazer escolhas responsáveis. Não precisamos de muito dinheiro para viver com dignidade.

 

Fonte: Marcia Dessen, Planejadora financeira CFP (Certified Financial Planner), autora de ‘Finanças Pessoais: O Que Fazer com Meu Dinheiro’   |   FSP

 

(JA, Jan21)