Tudo muda com o envelhecer: da anatomia à farmacologia, com a dosagem dos medicamentos e interação entre eles

Em 1970, quando me formei em medicina, ainda não havia ouvido a palavra ‘geriatria’. Compreensível, éramos um país jovem.

Prevaleciam as doenças infecciosas entre crianças e jovens. Os poucos pacientes idosos eram tratados em enfermarias gerais, ou nos ambulatórios, onde um saber específico não lhes era contemplado.

Já não somos um país jovem. Segundo os mais recentes dados do IBGE, a proporção de 60+ já ultrapassou 16%, devendo chegar a 30% até 2050. A partir de 2042, nossa população chegará a um pico, em torno de 260 milhões e começará a declinar. Ano a ano, menos jovens e mais idosos. O subgrupo em maior crescimento será o de 80+.

Cinquenta anos são o que eu tenho de formado, e continuo trabalhando.

Um estudante de medicina que se gradue em 2025 terá grande probabilidade de chegar ainda ativo a 2075, quando mais pessoas estarão celebrando seus 80 anos do que crianças nascendo.

No entanto, a geriatria continua a não fazer parte do currículo da maioria de nossas escolas médicas. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), deveria haver um geriatra para cada mil idosos. No Brasil, temos um para cada 12.500.

Em 15 estados, há menos de um geriatra para mais de 15 mil idosos. No SUS, há 2.500 geriatras, a maioria concentrada nos estados do Sudeste. Deveríamos ter 28.000 adicionais.

Existem cerca de 16.500 médicos se especializando por meio de residências, menos de 1% deles em geriatria. Em todo o país, há apenas 35 programas de especialização na disciplina, e em vários estados, nenhum.

Precisamos de um número maior de geriatras, embora não seja isso o mais relevante. É preciso que todos os futuros profissionais da saúde aprendam muito mais sobre todos os aspectos relacionados ao envelhecimento.

Tudo muda com o envelhecer: da anatomia, fisiologia, fisiopatologia à farmacologia, com a dosagem dos medicamentos e interação entre eles. Até mesmo na apresentação de doenças, os parâmetros mudam.

A falta de conhecimento faz com que gastroenterologistas, cardiologistas, neurocirurgiões, médicos de família, seja qual for a especialidade, cometam erros crassos.

Costumo dizer a estudantes de medicina: ‘Vocês vão matar pacientes, na santa ignorância, sem nem mesmo perceberem que o estão fazendo’. E, a menos que aprendam muito mais sobre envelhecimento, assim seguirão exercendo suas práticas médicas por décadas… Matando pacientes, sem saber.

Além do mais, é impossível gostar de algo que você desconhece. O resultado é o descaso, e a atitude negativa (‘poxa, que manhã chata, este é o décimo idoso que atendo hoje’).

No Brasil, envelhece-se precocemente e mal. A pandemia tem mostrado isso de forma clara. As decantadas comorbidades colocam milhões de brasileiros no grupo de alto risco, muito antes de terem chegado à tal da velhice.

Que chance terão os ‘nem-nem’ de hoje, que nem trabalham nem estudam, de gozarem de uma longevidade saudável? Ou mesmo, de cuidarem bem de seus familiares idosos, desempregados, passando fome, sem conhecimentos básicos?

Digo mais, não só os profissionais da saúde precisam ser treinados para o século 21. Futuros arquitetos, planejadores urbanos, designers, jornalistas, advogados também. É preciso uma revolução da educação para responder à revolução da longevidade.

Ou vamos esperar até 2075 quando os jovens graduandos de hoje se aposentarem?

 

Fonte: Alexandre Kalache, Médico gerontólogo, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil | FSP

 

(JA, Jul21)