Nasci em São Paulo… Naquela época tinha que tirar notas azuis, e morria de medo de notas vermelhas no meu boletim. Tinha que ser acima de 7.

Não tínhamos Bolsa Família. Os uniformes e material escolar eram comprados pelos nossos pais, com muito suor.

O calçado era conga (uso obrigatório), e não tínhamos celular… As pesquisas para os trabalhos da escola eram feitas em bibliotecas (da escola ou públicas), e/ou  na enciclopédia Barsa.

Os trabalhos eram escritos à mão, em folha de papel almaço; a capa era feita com papel sulfite.

Tínhamos dever de casa para fazer, Educação Física era de verdade, e ainda cantávamos o Hino Nacional, e rezávamos no pátio, antes de ir para a sala de aula.

Na escola tinha o Gordo, a Magrela, a Branca Azeda, Quatro Olhos, a Baixinha, Olívia Palito, o Palitão, o Cabelo Bombril, o Negão, Periquito, Narigudo, a Girafa, e por aí vai…

Todo mundo era zoado. Às vezes até brigávamos na ‘hora da saída’, mas logo estava tudo resolvido, e seguia a amizade… Era brincadeira, e ninguém se queixava de bullying.  Existia o valentão, mas também existia quem defendesse os mais fracos. O lanche era levado na lancheira (fecho os olhos e consigo sentir o cheiro da lancheira), ou dentro de um saco de papel.

Tinha criança que, às vezes, tendo dinheiro, enfrentava uma fila quilométrica só para comprar uma coxinha, vendida pelos alunos da oitava série que estavam juntando dinheiro para formatura…

Época em que ser gordinho(a) era sinal de saúde e, se fosse magro, tinha que tomar o Biotônico Fontoura.

A frase ‘peraí mãe’ era para ficar mais tempo na rua, e não no computador ou no celular…

Colecionávamos figurinhas, bolinha de gude, papéis de carta, selos, pastilhas de parede coloridas, pedras… As brincadeiras eram saudáveis. Brincávamos de bater em figurinhas, e não nos colegas e professores. Adorava quando a professora usava mimeógrafo e aquele cheiro do álcool tomava conta da sala.

Na rua era jogar bola, queimada, pular corda, amarelinha, beijo-abraço-aperto de mão, subir em árvores, bets, pular elástico,  pique-esconde, polícia e ladrão, mãe da rua, passa anel, roda, lenço atrás, andar de bicicleta,  carrinho de rolimã, soltar pipa, e ficar na rua até tarde. Se comia na casa dos colegas, quando chegava em casa tomava esporro por isso (‘Não tem comida em casa?’)

Não importava se meu  amigo era negro, branco, pardo, rico, pobre, menino ou menina, todo mundo brincava junto, e como era bom. Bom não, era maravilhoso! Assistia Pica-Pau, Tom e Jerry, Pantera Cor de Rosa, Papa Léguas, Nacional Kid, Os Flinstones, Os Jetsons, Corrida Maluca , Ultraman, e vários outros…

Que saudades desse tempo, em que a chuva tinha cheiro de terra molhada! Época em que nossa única dor era quando passavam Mertiolate nos machucados. Felizes em comparação com esse mundo de hoje onde tudo se torna bullying. Nossos cuidadores (pai, mãe, tio, tia, avós) eram presentes, mesmo trabalhando fora o dia todo. Educação era em casa, até porque, ai da gente se a mãe tivesse que ir à escola por termos aprontado. Nada de chegar em casa com algo que não era nosso, desrespeitar alguém mais velho, ou se meter em alguma conversa.

Xiiii… Era um tapa logo, ou só aquele olhar de ‘quando chegar em casa conversamos’ (já sabia que iria apanhar).

Tínhamos que levantar para os mais velhos sentarem… Pedíamos a benção para os pais na hora de ir pra cama.

Fico me perguntando, quando foi que tudo mudou, quando os valores se perderam e se inverteram dessa forma?

Foi exatamente assim que vivi minha infância. Claro que tive um sorriso no rosto enquanto relia esse texto, e relembrava de vários bons momentos…

Quanta saudade, quantos valores que para geração de hoje não valem nada!

Agradeço por tudo que vivi e aprendi! Por conta de tudo isso, fui e sou muito feliz.

Fonte: Marcelo Amadei Barbiellini Jr  |  Memórias / Histórias Paulistanas

 

(JA, Abr21)