Precisamos falar da morte simbólica de milhões de brasileiros invisíveis

Aldemira é um exemplo de ‘bela velhice’. Infelizmente, essa não é a realidade de milhões de brasileiros.

As nossas casas escondem uma brutal violência física, psicológica e verbal, abuso financeiro, negligência, falta de cuidados básicos de higiene e saúde, maus tratos e abandono dos mais velhos. As denúncias pelo Disque 100 cresceram 500% durante a pandemia: só no primeiro semestre de 2021 foram registrados mais de 33,6 mil casos de violência contra os velhos. A realidade é muito mais assustadora, pois a maioria tem medo e vergonha de denunciar seus agressores, os próprios filhos em mais de 50% dos casos, além dos netos, cônjuges, genros e noras.

Mas a velhofobia não está somente dentro de casa.

Quem não ficou horrorizado com os discursos velho fóbicos das autoridades xingando os velhos de ‘inúteis’, ‘descartáveis’, ‘um peso morto’ para a sociedade?

‘Vão morrer só alguns velhinhos doentes. Os velhos vão morrer mesmo, mais cedo ou mais tarde. Vai ser até bom para a Previdência se morrerem logo. O problema do Brasil é que todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130…’.

Recentemente, tive o desprazer de participar de um debate com um ‘especialista’ que não queria perder tempo escutando as histórias dos nonagenários que pesquiso desde 2015. Com uma atitude de superioridade, ele me interrompeu:

‘Esses velhinhos são uma porcentagem minúscula da população brasileira, uma minoria insignificante. É praticamente impossível encontrar nonagenários saudáveis, ativos, lúcidos e independentes. Vamos debater o que é importante, a situação miserável da grande maioria dos velhos no Brasil’.

Fiquei chocada com a arrogância e agressividade dele.

‘Quem disse que o senhor tem o monopólio da fala sobre a velhice? Qual o seu interesse em criar uma polarização estapafúrdia entre os velhos que merecem atenção, e os que devem ser ignorados? Se as vacinas não tivessem sido sabotadas, quantos dos 500 mil brasileiros que morreram estariam vivos, e poderiam ter uma velhice como a dos nonagenários pesquisados pela Mirian? É preciso a união de todos contra os psicopatas genocidas, é um absurdo provocar divisões que só enfraquecem a luta contra a velhofobia’.

Inspirada em Aldemira, apesar de ainda faltar algum tempo para os meus 75 anos, estou pensando em começar a correr. Apesar dos velhos fóbicos de plantão, também quero ser uma ‘velha maluca’ ou, como cantaria Raul Seixas, uma ‘velha maluca beleza’, e viver 100, 120, 130 anos. Fora velhofobia!

 

Imagem em destaque: A corredora capixaba Aldemira Adão, de 94 anos

Fonte: Mirian Goldenberg, Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de ‘A Bela Velhice’ | FSP

 

(JA, Jun21)