Desde pequena, eu ia à procissão de Corpus Christi, nas ladeiras íngremes de São Manuel.
Tapetes forravam as ruas com desenhos e figuras religiosas: cálices de vinho, cachos de uva, anjos, santos, padrões repetidos. O pó de café era usado para ser a cor marrom, o arroz, o branco das nuvens, assim como o feijão, a quirera de milho e o fubá eram, cada um deles, usados como paletas coloridas. Esse era o cenário da festa religiosa que ia começar, e os tapetes eram apenas o tablado, onde os fiéis caminhavam, lentamente, em procissão. As crianças acompanhavam seus pais, comendo churros.
Depois da missa campal, o padre, carregava o ostensório, e ia cantando aquelas músicas antigas, abrindo a cortejo, desmanchando os desenhos enquanto pisava firme no chão e um cheiro gostoso de café saía, devagarzinho, das ruas enfeitadas.
No final, a Igreja Matriz, de portas abertas recebia todos, num altar iluminado. Tudo era lindo!
Voltei neste ano. As ruas estavam cobertas de figuras, agora feitas, não com café e fubá, mas com micro bolinhas de plástico.
Tinha até um anjo com cabelo feito de macarrão!
As pessoas andavam ao lado dos tapetes, tendo o cuidado para não desmanchar os desenhos tão caprichados. Dava para passear, pois agora, a procissão era em ruas planas e muito agradáveis. As crianças comiam churros, e o vendedor de maçã do amor ainda estava lá. Me lambuzei com uma!
Pais cumprimentavam os amigos e os velhos conhecidos, tentando, ao mesmo tempo, acompanhar as crianças, sempre impacientes.
Quando chegou a hora marcada, logo depois da missa, o padre principal vinha caminhando lentamente, junto com 9 outros padres, que ajudavam a função. Logo atrás, andando devagarinho, vinham os coroinhas, com a bata branca rendada cobrindo a túnica vermelha. Eles balançavam incensórios de prata, onde queimavam folhas de mirra. Me lembrei do cheiro das missas do meu colégio, com as freiras incensando a ala principal da capela.
Duas filas de missionários ladeavam a procissão. Usavam, também, uma bata branca, que cobria os sapatos pretos, brilhantes, muito bem engraxados. Uma menininha chutava e empurrava as bolinhas, desmanchando os desenhos. Sua mãe ficou brava: “Filha o que é isso?” “Ah! Mãe, eles deram tudo isso pra gente, agora estou devolvendo!” Êta, garotinha!
Lá no final, um altar dourado esperava o fim da procissão. Houve muita reza, ladainhas e cantoria.
A Igreja Matriz e o altar de São Manuel recebiam todas as pessoas, já cansadas, num ambiente bem iluminado. Tudo era lindo!
Confira outra crônica de Renata Oliva:
Lá no Sítio
Renata Oliva
Blogueira
Quase Pedagógico