Crença de que cuidar depende apenas de amor e carinho reforça omissão do governo

Com a pandemia, de uma hora para outra foi necessário estruturar redes de cuidado. Notas foram colocadas nos elevadores para ajudar com compras de supermercado e farmácia. Aplicativos foram desenvolvidos para recrutar voluntários para bate-papos por telefone. Forças-tarefas de organizações da sociedade civil foram criadas para o enfrentamento da pandemia em instituições de longa permanência para idosos.

Com a necessidade de dispensar cuidadores e outros trabalhadores domésticos, muitos dos meus amigos tiveram que acumular, de repente, o cuidado de pais, tios e avós. Eles não são exceções: até 2030, mais de 200 milhões de pessoas idosas em todo o mundo precisarão de cuidados para atividades essenciais; no Brasil, serão 7 milhões.

As famílias —especialmente as mulheres— provêm mais de 90% do cuidado, e assumem a quase a totalidade dos custos. É um trabalho quase sempre solitário e, com frequência, invisível, que acontece na vivência cotidiana e na intimidade. Como sociedade, acreditamos que cuidar é uma manifestação de amor, e que depende apenas de carinho e dedicação. Essa crença, além de inapropriada, reforça a omissão do Estado.

O Brasil está defasado. Falta uma política sustentável de cuidados que dê apoio às pessoas que, em algum momento da vida, precisem de assistência. Para boa parte da população, as contingências (pobreza, baixa escolaridade, moradias precárias etc.) não permitem que esse cuidado seja adequado ou mesmo suficiente, o que resulta em perda da dignidade humana e grande sofrimento.

Os governos omissos e negligentes se aproveitam do senso de dever das famílias, mas acabam pagando um alto custo —idas frequentes ao pronto-socorro e internações desnecessárias e prolongadas, muitas vezes decorrem de cuidados inadequados ou insuficientes.

Precisamos acelerar a construção de uma Política Nacional de Cuidados, especialmente para os mais vulneráveis. A discussão sobre mecanismos de financiamento, público e privado, para cuidados de longa duração é mais que urgente.

Serviços de saúde precisam ser integrados aos serviços sociais. Pacotes de serviços essenciais e prioritários para toda a jornada do cuidado (prevenção, tratamento, reabilitação e cuidados paliativos), estruturados em rede, precisam estar disponíveis a todas as pessoas idosas e seus cuidadores dentro do SUS.

Nessa política, quatro ingredientes não podem faltar:

  1. Estratégias para diminuir a precarização das relações de trabalho de cuidadores profissionais;
  2. Treinar e capacitar cuidadores familiares e profissionais;
  3. Intervir para aliviar o estresse físico e emocional;
  4. Disponibilizar produtos para facilitar o cuidado.

Todos queremos envelhecer com saúde e independência. Mas, com certo frio na barriga, você já parou para pensar como será quando e se precisar de cuidados? Está na hora de aprender sobre a necessidade de cuidarmos um dos outros.

Imagem em destaque: A atriz Tabata Contri segura a mão da mãe, Eliane Ribeiro, no Espaço Vida, instituição de longa permanência para idosos

Fonte: Monica Perracini, Fisioterapeuta, doutora em reabilitação e conselheira do Centro Internacional de Longevidade (ILC) no Brasil   |   FSP

 

(JA, Fev21)