Dependendo de como o envelhecimento é tratado, a longevidade pode se tornar um problema para os governantes

É desejável que as pessoas envelheçam ativas e saudáveis, e criar as condições para que isso ocorra nas cidades não é simplesmente uma questão de saúde, ou de cuidados com os idosos. Requer considerar o envelhecimento na exata medida, e em todas as políticas, serviços, ambientes urbanos e estruturas das cidades.

A escala mundial desse problema foi definida em números pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 2020. Até o final desta década, o número de pessoas com 60 anos ou mais será 34% maior do que em 2020, atingindo a marca de 1,4 bilhão. Em 2050, a população global de idosos terá mais que dobrado, e haverá duas vezes mais pessoas com mais de 60 anos do que crianças com menos de 5 anos.

O número de pessoas com idade superior a 60 anos aumentará mais rapidamente nos países em desenvolvimento, saindo de 652 milhões, em 2017, para 1,7 bilhão em 2050, enquanto os países desenvolvidos experimentarão um aumento de 310 milhões de pessoas para 427 milhões.

O número de idosos está crescendo mais rapidamente na África, seguido pela América Latina, Caribe e Ásia. As projeções da ONU indicam que quase 80% da população idosa do mundo viverá em países menos desenvolvidos em 2050.

Preparar cidades para os idosos é um desafio crítico e urgente. Existe a necessidade de considerar ambientes amigáveis aos idosos que incorporem tanto dimensões físicas e sociopolíticas, quanto a inter-relação entre esses dois aspectos. Dessa forma, devem ser incluídos na conceituação proposta dos domínios físicos, como habitação, transporte e mobilidade, e os espaços públicos ao ar livre, assim como os aspectos sociopolíticos, que envolvem participação política e cívica, redes sociais, inclusão digital, respeito e reconhecimento.

A professora Rebecca Chiu, da Universidade de Hong Kong, examinou as implicações da cidade compacta no bem-estar mental dos residentes mais velhos. Ela demonstra que a compacidade urbana oferece uma rede mais intensiva, e uma gama mais ampla de serviços comunitários e de instalações de varejo.

A economia de escala, impulsionada pela maior concentração populacional, torna os serviços mais acessíveis espacialmente, financeiramente viáveis e administrativamente justificáveis. Esses aspectos, embora positivos para o bem-estar dos idosos, com melhoria da capacidade cognitiva, dependem da acessibilidade às instalações e aos serviços do bairro, e ainda de condições locais, como a existência de elevadores e rampas necessárias para facilitar a mobilidade.

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia do Ambiente Construído em Queensland, na Austrália, relacionaram a integração da infraestrutura verde, e acessibilidade, à redução do estresse provocado pelo calor em idosos, e ao aumento da longevidade.

O fato é que muitos cientistas têm se dedicado a compreender esse complexo tema e, sem dúvida, planejar as cidades considerando que o envelhecimento implicará percorrer as ciências humanas e aplicadas, além de mergulhar nas ciências biológicas, em busca de pistas para uma apreciação mais holística das realidades vividas pelos idosos.

Suas histórias, ritmos cotidianos, desafios, preocupações e desejos, importam, da mesma forma como essas histórias se cruzam com potenciais implicações para a saúde e o envolvimento da comunidade.

A pesquisa, a política, e a prática de planejamento do envelhecimento, é uma oportunidade e catalisador, para promoção uma cidade mais justa, de um urbanismo mais humano.

 

Fonte: Claudio Bernardes, Engenheiro civil e vice-presidente do Secovi-SP, A Casa do Mercado Imobiliário

(JA, Ago22)