Especialista em projetos para a vida madura mostra quais são as funcionalidades necessárias na transição da casa para os que passam dos 55

Já faz mais de 20 anos que eu e meu marido moramos numa adorável casa de vila, em São Paulo. Quem conhece as vilas paulistanas sabe que elas têm duas características principais: a tranquilidade em pleno agito urbano e, em quase 100% dos casos, são sobrados. Isso significa que o deslocamento interno é feito por meio de escadas. Na minha casa, são duas.  Por enquanto, o sobe-e-desce faz bem para a saúde, mas vai se tornar um problema à medida que envelhecemos. Em algum momento, teremos que tomar a decisão de mudar para um apartamento ou casa de apenas um piso.  E mudar… bem, sabemos que qualquer mudança já é difícil, imagine trocar de casa depois de décadas no mesmo endereço.

Sobre esse assunto, a psicóloga americana Nancy Schlossberg, autora do livro ‘Too Young to be Old’, disse à jornalista Estelle Erasmus do jornal Washington Post que ‘os idosos precisam perceber que levará tempo para se ajustarem à nova vida, e eles devem se permitir o luto pelo que deixaram para trás’.

Nos Estados Unidos, a ONG National Association of Senior Move Managers (NASMM), criada em 2002, se diz a única associação profissional no mundo dedicada a ajudar a população de mais de 55 anos em questões de transição de vida. Uma dessas transições é justamente a de casa, uma necessidade que pode nascer da morte do parceiro, ou por conta de uma doença incapacitante. Segundo a entidade, uma maneira de facilitar o ajuste é garantir que a nova casa seja confortável, segura, e adaptável às limitações físicas.

Já há algum consenso sobre as funcionalidades dessa nova casa e, aqui, estão algumas delas, segundo a arquiteta Lisa M. Cini, especialista em projetos para a vida madura, e autora do livro Boom: The Baby Boomers’ Guide to Preserving Your Freedom and Thriving as You Age in Place:

  1. Portas e pisos – prefira maçanetas com alavancas, já que as redondas são difíceis de segurar se a pessoa tiver artrite; os tapetes devem ser antiderrapantes, assim como os azulejos para banheiros e cozinhas.
  1. Iluminação – o escuro pode provocar quedas e outros acidentes. Por isso, invista em iluminação nos armários, corredores e debaixo da cama, preferencialmente ligadas por sensores de movimento. Nas escadas, use uma cor de tinta diferente no primeiro e no último degraus – e não esqueça do corrimão.
  1. Banheiro – instale corrimãos ou barras de apoio no vaso sanitário e nos controles do chuveiro. A arquiteta americana também recomenda que a parede onde o vaso sanitário está seja pintada de outra cor, para separá-la de todo o resto. O chuveiro deve ter um assento para o caso de a pressão cair de uma hora para outra.
  1. Sala de estar – evite mesas de vidro, porque é mais difícil ver as bordas e os cantos pontiagudos.
  1. Cozinha: invista em panelas e frigideiras leves; instale o micro-ondas na altura dos olhos; prefira pratos com divisórias para os alimentos. E compre fogão com desligamento automático, para o caso de você esquecer de… você sabe.
  1. Quarto – a altura ideal para a cama é de cerca de meio metro; livre-se de qualquer coisa em que possa esbarrar ou escorregar, especialmente se você se levantar no meio da noite e sua pressão arterial cair, uma das principais causas de quedas. Atenção para a mesinha de cabeceira: ela deve ser grande o suficiente para conter copos, medicamentos e uma luminária de leitura. Providencie uma tomada de fácil acesso para carregar o celular. Adote cortinas ou persianas para escurecer o ambiente.
  1. Alta tecnologia e conexões pessoais: invista em serviço de internet de alta velocidade, smartphones ou tablets com acesso a mídias sociais ou aplicativos de mensagens. Mantenha-se conectado com a família, os amigos e o mundo.

Por fim, Lisa M. Cini diz que, quando desenha um espaço, segue o método L.O.V.E., iniciais para as palavras em inglês light (luz), optimize (otimizar), visual (visual) e ease (facilidade). Portanto, ‘love’ para todos nós.

Fonte: Maria Tereza Gomes, jornalista, mestre em administração de empresas pela FEA-USP, CEO da ‘Jabuticaba Conteúdo’, e mediadora do podcast ‘Mulheres de 50’ | Época Negócios, Globo

(JA, Mai22)