Tenho relações muito boas com os meus filhos. Somos amigos. Não me intrometo na vida deles, e eles não se intrometem na minha. Conversamos sobre os problemas comuns, mas ninguém se atreve a dar conselhos.

Porque ninguém gosta de ouvir conselhos. Quem dá conselhos, está silenciosamente dizendo: ‘Sei mais sobre a sua vida que você. Se eu fosse você eu etc., etc.…’

Mas o fato é que os filhos, frequentemente, acham que os velhos perderam o juízo, e que fariam melhor se obedecessem aos seus sábios e desinteressados conselhos. ‘Papai, é para o seu bem…’ Os filhos sabem o que é bom para os seus pais.

Pois o que digo aos filhos, não como conselho, mas como grito, é o seguinte: ‘Parem de ser chatos. Deixem seus pais em paz. Estão no fim da vida. Eles têm o direito de fazer o que desejam, ainda que seja errado. Um desejo errado é melhor que um não-desejo certo’.

Ah! Como os seus pais os amariam, se vocês os ouvissem com respeito. Porque é isso que mais se deseja. Quando se ouve com respeito, acontece a amizade. E não existe nada de mais precioso que vocês possam dar ao seus pais do que a amizade. Quando os filhos se põem a dar conselhos sábios aos seus pais, o que se produz é um abismo entre ambos.

Chata é uma pessoa que está convencida da verdade das suas opiniões, e se põe a atormentar os outros com as ditas opiniões. Por isso não lhe passa pela cabeça que seria interessante ouvir o que o outro tem a dizer. Na verdade, ele não imagina que o outro tenha alguma coisa para dizer que valha a pena ser ouvida.

Uma vez, numa festinha, fui capturado por um chato. Ele falava sem parar a dois palmos do meu nariz, cuspindo, e me cutucando a barriga para que eu prestasse atenção. Eu fui me afastando para evitar os cutucões e os perdigotos, até que me vi contra a parede sem ter para onde fugir. De repente me veio uma ideia que me produziu pânico: ‘A festa vai acabar, e eu ficarei livre dele. Mas, a mulher dele vai dormir na mesma cama que ele…’

O pânico que tive foi por causa dela. Hoje de manhã me dei conta de que os chatos podem ser os filhos. Nesse caso, ao invés de um, são muitos: nuvens de pernilongos a cantar o mesmo canto, e a nos ferroar, impedindo o sono.

Os gerontologistas se preocupam com a saúde física e mental dos velhos. Pois me veio à cabeça que aos seus programas de reeducação dos velhos deveria acrescentar-se um programa de reeducação dos filhos dos velhos.

À longa lista de doenças que afligem os velhos, reumatismo, surdez, osteoporose, catarata, dor no corpo, barbela de nelore (nelore é uma raça bovina que se caracteriza por longas papadas pendentes balouçantes), urina presa, dentadura (pois dentadura não é uma doença?), deveria ser acrescentada mais uma doença de cura difícil: os filhos chatos que querem mandar nos seus pais.

Sugiro que os velhos leiam o livro da Simone de Beauvoir ‘A Velhice’. É um murro na cara. Filhos de pais velhos: divirtam-se no próximo fim de semana! Vejam o filme ‘A Balada de Naraiama’.

É uma tendência que se encontra em muitas culturas: chegada uma determinada idade, o que os filhos mais desejam é a morte dos pais. Porque os pais velhos deixaram de ser uma presença alegre e útil. Principalmente útil. Passam a ser uma presença incomoda.

O poema da pedra, do Drummond, serve para uma infinidade de situações. Uma delas é a seguinte:

‘Tinha um velho no meio do caminho,

no meio do caminho tinha um velho…”

O que me faz lembrar aquela piadinha… O neto, dirigindo-se ao vovozinho querido: ‘Vovô, quando é que você vai virar sapateiro?’ Responde o vovô espantado: ‘Virar sapateiro? Por quê?’ Explica o netinho: ‘É que eu ouvi o papai conversando com a mamãe e ele disse que quando você bater as botas nós vamos fazer uma viagem à Disneylândia…’

O filme ‘A Balada de Naraiama’ tem como cenário altas montanhas nevadas. Se fosse filmado num cenário moderno, ao invés de nas montanhas, teríamos as instituições onde os velhos são colocados à espera da morte.

Há uma estética da velhice. Quem desenha a estética da velhice são os jovens. Ah! Que linda é a vovó que fica com os netos para que os filhos possam viajar, ou ir ao cinema! Vovó que faz bolinho de chuva; que faz manta de tricô para os netos; vovô que conta estórias para os netinhos dormir… Há o Dia das Mães. Há o Dia dos Pais. Seria justo que houvesse um dia dedicado aos avós! Que presente dar à vovozinha? Um par de chinelos! Que presente dar ao vovozinho? Um gorro de lã para proteger as orelhas do frio!

Mas a beleza dos velhos acaba quando eles se recusam a ser úteis aos desejos dos filhos. Principalmente quando eles começam a ter ideias amorosas. Velho que ama, é velho tarado.

Faz muito escrevi uma crônica sobre dois velhinhos que haviam sido namorados quando adolescentes, separaram-se, nunca mais se viram. Reencontraram-se muitos anos depois – ele com 79 anos, ela com 76. Apaixonaram-se, resolveram casar-se. Os filhos protestaram. Velho deve se preparar para morrer, e não se meter em ridículas aventuras amorosas! Já pensaram em noite de núpcias de velho? É de rachar de dar risada! Ele morreu aos 81. Ela me telefonou, interurbano, e depois de uma conversa de 40 minutos, me confessou: ‘Pois é professor, nessa idade a gente não mexe muito com as coisas do sexo. Nós vivíamos de ternura!’

O que mais assusta os filhos quando os velhos se metem a arranjar namoradas é o destino da herança. Lembro-me de um respeitável senhor, professor, que viveu uma longa vida conjugal. (‘Conjugal’, do Latim, ‘com’ + ‘jugus’, canga: aqueles que andam ligados por uma mesma canga). Ficou viúvo.

A ausência da canga o tornou eufórico. Começou a arranjar namoradas. Os filhos ficaram muito bravos. Acharam que o velho estava fazendo papel ridículo. E o pior: gastando seu dinheiro com mulher à toa. Convocaram uma reunião de família para recolocar o velho nos trilhos da elegância socialmente aceita. Assentados à volta a mesa, os filhos despejaram suas reprimendas contra o velho que tudo ouviu mansamente, sem uma única queixa. Terminada a rodada, dada a palavra ao velho, ele disse só uma frase: ‘Tenho minhas necessidades afetivas…’ E com esse argumento final, que não comporta contestação, levantou-se e deixou os filhos falando sozinhos…

Essas ideias me vieram à cabeça porque hoje pela manhã recebi um telefonema de uma pessoa muito querida, velho, com uma queixa dolorida: a sua solidão. Ele já não mais é ouvido, não é respeitado; são os filhos que sabem a sua verdade e querem obrigá-lo a fazer o que ele não quer fazer, e a não fazer o que ele quer fazer. E não pensem que são coisas absurdas o que ele quer fazer. São coisas que eu mesmo quereria fazer, se estivesse no lugar dele. Pequenos voos de generosidade…

Diante disto só me resta um grito de guerra:

 ‘Velhos de todo o mundo! Uni-vos!

Fonte: Rubem Alves, psicanalista, educador, teólogo e escritor

(JA, Jun22)