Empresa britânica decide dar licença remunerada para os avós após nascimentos dos netos

Toda a sociedade sai lucrando quando há mais avós, por mais tempo.

Há décadas, surgiu uma especulação plausível para explicar por que, na evolução da espécie humana, o final da vida reprodutiva da mulher antecede a morte por muito tempo. Isso lhe proporciona anos de potencial dedicação para cuidar dos netos, enquanto seus filhos se encarregam do sustento da prole, ou dos encargos com a procriação de mais filhos, dando aos descendentes mais chance de sobreviver.

Um estudo recente feito na Universidade de Emory, em Atlanta, nos EUA, traz outra dimensão: o forte vínculo afetivo entre avós e netos. É conhecido o ‘ressentimento’ de filhos (‘Ela jamais me deixaria fazer isso’, ‘ele é muito mais flexível com os netos do que foi comigo’…). Já que não lhes cabe educar ou sustentar, é mais fácil para os avós serem mais tolerantes.

Mas o estudo sugere outra razão: a empatia emocional, que permeia a relação entre avós e netos.

Usando ressonância magnética, pesquisadores registraram imagens da função cerebral de mulheres quando foram mostradas a elas fotos de seus netos de 3 a 12 anos, e as compararam às reações quando apresentadas a elas fotos de seus próprios filhos, ou imagens de filhos de pessoas que não conheciam.

Resultado: as avós se conectaram emocionalmente com seus netos ou netas de forma muito mais intensa do que com crianças com quem não tinham ligação, e mesmo com seus próprios filhos.

É a ‘empatia emocional’, diferente da ‘cognitiva’, que capacita entender racionalmente o que uma pessoa está sentindo, e por quê.

Para mim, faz todo sentido. Mas a recíproca pode também ser verdadeira. Minha primeira pesquisa sobre envelhecimento, durante meu mestrado na universidade de Londres, nos anos 1970, mostrou que os geriatras que mais demonstravam satisfação no trabalho eram os que, na infância e na adolescência, tinham tido fortes laços afetivos com seus avós, principalmente se conviviam diariamente com eles, morando juntos.

Eis agora a inovação: uma grande companhia britânica, a Saga, instaurou uma nova política de recursos humanos, concedendo aos avós uma licença remunerada após o nascimento dos netos. Entre as justificativas, a de que avós devem ter tempo para compartilhar com seus filhos conhecimento e experiência nos cuidados, além de criar laços emocionais desde o início da vida.

E aos que lamentam o envelhecimento populacional, um aviso. Talvez o futuro seja mais promissor, exatamente porque ser avô ou avó está se tornando uma experiência mais prolongada, com o aumento da expectativa de vida do grupo 50+.

Teremos crianças se beneficiando, por mais tempo, de avós predispostos a lhes contemplar com a ‘empatia emocional’, protegendo e as inspirando.

Na Inglaterra, há cerca de 5 milhões de avós, 40% deles cuidando regularmente de seus netos. Nos EUA, 70% do cuidado não-parental de crianças é prestado por avós, uma imensa contribuição para a economia, ainda que difícil de mensurar.

No Brasil, onde a gravidez prematura, o aprisionamento de tantos, e a morte de adultos jovens, deixa dezenas de milhares de crianças sob os cuidados de avós, deveríamos dar a eles um reconhecimento muito maior. Mesmo sabendo que a maioria é amplamente recompensada pelo prazer que nós, avós, ganhamos ao poder contemplar o florescer de nossos netos.

 

Imagem em destaque: Os escoceses Ed e Marie Graham encontram sua neta pela primeira vez no aeroporto de Seattle, nos EUA, após um ano de restrições impostas pela pandemia

Fonte: Alexandre Kalache, Médico gerontólogo, presidente do Centro Internacional de Longevidade no Brasil (ILC-BR) |  FSP

(JA, Dez21)