Viajar sempre fez parte da vida das irmãs Patrícia e Amanda Hungria. ‘Em 1975, minha mãe foi com os filhos de Itapetininga-SP até a Ilha de Marajó-PA, acampando’, lembra a primeira, hoje com 62 anos. ‘De pequena, já guardava dinheiro para viajar. Adoro conhecer lugares’, conta a segunda, de 64 anos.

E foi justamente durante a pandemia que as aposentadas aproveitaram para bater os recordes pessoais de quilômetros rodados. Com toda segurança, claro. Com a segunda dose da vacina tomada, a dupla trocou o avião por um Land Rover Freelander, e saiu de São Paulo rumo ao Jalapão-TO, em uma viagem planejada para durar 20 dias.

Mas, mal caíram na estrada, decidiram alterar a programação, e a aventura terminaria apenas 76 dias depois, após quase 13.500 quilômetros rodados pelo Centro-Oeste e Nordeste brasileiro. Relata Patrícia:

‘Foi uma viagem deliciosa, sem nenhum problema. Não teve pneu furado, preconceito, ou situação de perigo. Pelo contrário, encontramos boas estradas, pessoas solícitas, protocolos sanitários seguidos, e quase nenhum dia de chuva’.

Por segurança, as irmãs só viajavam com a luz do sol — o que significava limitar os deslocamentos a 450, 500 quilômetros por dia —, sempre levavam água fresca e pequenos lanchinhos na bolsa térmica para não ter de parar em locais estranhos; mantinham o tanque do carro bem abastecido; contratavam guias locais para otimizar deslocamentos e evitar grupos; e agendavam hotéis com ao menos dois dias de antecedência. Antes de sair, o carro ainda passou por uma revisão geral.

Lagoa do Japonês, nas Serras Gerais (TO)

Pontapé inicial no Tocantins

O primeiro dia de viagem foi também o com maior tempo de estrada. ‘Foram 1.010 km de São Paulo a Brasília, em 12 horas’, lembra Patrícia, que se tornou a motorista oficial. Em compensação, no dia seguinte, a dupla já começou a conhecer as belezas das Serras Gerais, no Tocantins.

E haja preparo físico: só para chegar na Cachoeira da Fumaça, um dos cartões-postais da região, foram 42 quilômetros a pé.

O pequeno Cânion Sussuapara, em Ponte Alta, a Cachoeira da Velha, e o rafting no Rio Novo, deram as boas-vindas ao Jalapão e suas dunas avermelhadas. A troca de hospedagem quase que diariamente era parte da rotina. Mas, com a pandemia, estava muito mais fácil fechar com bons hotéis pela internet, poucos dias antes. ‘Além disso, evitávamos os pontos turísticos mais famosos aos finais de semana, para evitar aglomeração’, conta Amanda.

Patrícia mergulha nas águas cristalinas do Fervedouro do Buritizinho, no Tocantins

Localizadas em áreas privadas, muitas das atrações da região cobram ingressos (em média, R$ 20), caso dos fervedouros. ‘São lugares pequenos, como um poço, onde a pressão do lençol freático eclode e forma bolhas, que não deixam você afundar. São lindos, mas o tempo de mergulho é limitado, assim como o número de pessoas que entram por vez’, explica a irmã mais nova.

Em apenas dois dias a dupla visitou nove dos 12 existentes na região, intercalando os passeios por almoços em comunidades quilombolas (R$ 35, em média). ‘São raras as fazendas com restaurante’, explica Patrícia.

Do Maranhão a Fernando de Noronha

Com 10 dias de viagem, as irmãs seguiram para o centro-sul do Maranhão, mais especificamente para o Parque Nacional da Chapada das Mesas. As cachoeiras de Santa Bárbara e do Santuário (no Complexo da Pedra Caída) foram as preferidas da dupla, que ainda recomenda uma parada nos Poços Encantado e Azul, em Riachão

Cânion e cachoeira do Santuário, na Chapada das Mesas

Três dias depois seguiram para os Parques Nacionais das Serras da Capivara e das Confusões-PI, com seus sítios arqueológicos, grutas, cavernas, cânions, e demais formações geológicas surpreendentes. ‘É uma aula de Brasil, de geologia e história. E o artesanato é lindo. Ficamos com o carro cheio’, conta Patrícia.

Entre os pontos imperdíveis estão o Circuito da Pedra Furada, cartão-postal da região, com paradas no Boqueirão da Pedra Furada, com mais de 1.100 pinturas rupestres, e no Circuito Serra Branca, série de cavernas onde moravam os trabalhadores durante o Ciclo da Borracha (1900-1940)

Com o amortecedor do carro dando sinais de desgaste, a dupla decidiu rumar para a capital, Teresina, para reparar antes de seguir para os Lençóis Maranhenses. Antes, entretanto, um bate e volta de 500 quilômetros foi adicionado à programação, para conhecer o Cânion do Rio Poti, na divisa entre Piauí e Ceará.

Para encarar o areião no entorno de Santo Amaro, Barreirinhas, Atins e Tutoia, em segurança, a dupla deixou o carro no hotel, e seguiu de carona com o guia.

O que não significa que o local não tenha sido explorado também pelo ar, em um voo panorâmico exclusivo, e por água, nos passeios de barco pelo Rio Preguiças e Parnaíba – este para ver a revoada dos guarás no delta.

Foi nesse momento, prestes a completar um mês de viagem, que elas decidiram incluir o arquipélago de Fernando de Noronha na rota. A passagem foi marcada para dali 25 dias, o que serviu de desculpa para desbravar o litoral do Ceará.

Mais companhia

Foi também a essa altura que uma outra irmã e uma prima, que haviam ficado em São Paulo, tomaram coragem e compraram passagens aéreas para se juntar à aventura.

Um guia contratado em Camocim ajudou a dupla a cruzar as dunas, até Jericoacoara, com muita emoção, mas sem riscos, e a tempo de admirar o pôr do sol na famosa Pedra Furada.

‘Não tínhamos nos preparado para dias seguidos de praia. Tivemos de comprar biquíni, e colocar de lado as calças e botas de trilha’, conta Patrícia. Itens que seriam despachados por avião, juntamente com os artesanatos, em uma caixa de quase 20 quilos. ‘Precisávamos ter espaço no carro para voltar com mais gente’, explica.

A dupla prestes a descer de carro as dunas de Tatajuba, entre Camocin e Jericoacoara

De Jericoacoara até Canoa Quebrada, a viagem seguiu literalmente pela praia, beirando o mar, e cruzando rios com balsas para um único carro, puxadas manualmente. Com isso, as viajantes passaram por Mundaú, Flecheiras, Lagoinha, Cumbuco, Morro Branco, em pernadas de quase 100 quilômetros cada.

Empolgadas com a experiência, elas repetiram a dose pelo litoral do Rio Grande do Norte, passando por Timbau, Galinhos, São Miguel do Gostoso, Touros, Maracajaú, Cabo de São Roque, Barra de Maxaranguape, Muriú, Genipabu, Ponta Negra e Pipa. Lembra Patrícia:

‘Cruzamos rios de balsa, vimos falésias, caminhamos pelas praias, mergulhamos em piscinas naturais. Foram dias intensos e deliciosos’.

Já de volta ao continente, após cinco dias de Noronha, a programação seguiu para Porto de Galinhas e Praia dos Carneiros, ainda em Pernambuco, e, começando a descer de volta ao Sudeste, Maragogi, São Miguel dos Milagres, Barra Grande, Barra de São Miguel, em Alagoas.

‘Não queríamos ficar em cidades grandes por conta da pandemia’, conta Amanda, que também lembra a busca por restaurantes avarandados, ou ao ar livre pelo mesmo motivo.

Em Piranhas, o Rio São Francisco virou atração principal, com direito a passeio de barco pelos cânions. No caminho, pausa para admirar as igrejas e construções bem preservadas da cidade de Penedo, e a história de Lampião, em Canindé do São Francisco, no sertão de Sergipe.

(Quase) de volta para casa

Duzentos quilômetros e quase quatro horas de viagem depois, elas estavam em Aracaju para almoçar e terminar o dia em Mangue Seco-BA, onde vive um velho conhecido da família. Saudades aplacadas, hora de voltar à estrada até Barra Grande, na Península de Maraú.

Foi nesse momento, com 64 dias de viagem, que a trupe perdeu uma integrante. Amanda teve de voltar a São Paulo antes do esperado, para acompanhar o marido, que passaria por uma cirurgia.

Rapidamente um voo saindo de Ilhéus foi providenciado e, três dias depois, o grupo seguiu viagem por Arraial d’Ajuda, Caraíva, Prado e Caravelas, no sul da Bahia. Foi lá que aproveitaram para ganhar o mar, em busca de baleias jubarte, que nessa época se exibem no entorno do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (o melhor período é de julho a novembro).

Uma última esticada ainda incluiu Vitória-ES, Arraial do Cabo-RJ e Barra Mansa, onde vive o irmão, antes de voltar de vez para casa.

‘Essa viagem marcou para sempre. Nunca viajei tanto como durante a pandemia’

 

Imagem em destaque: As irmãs Patrícia e Amanda Hungria nas falésias de Canoa Quebrada, no Ceará

Fonte: Juliana Bianchi | UOL

 

(JA, Out21)