Separado desde a 2ª Guerra, casal se reencontra após 72 anos e faz planos

“Klaas Prins e Geerte Valk se conheceram na Holanda no meio da 2ª Guerra Mundial. O então casal de adolescentes se apaixonou e deu o primeiro beijo em um barracão que servia de abrigo para quem fugia do conflito.

Logo tiveram que se separar. Klaas foi para a guerra, serviu na Indonésia e imigrou para o Brasil. Perderam o contato, cada um se casou e teve filhos.

Após 72 anos, o viúvo Klaas, 89, que vive em Carambeí (a 140 km de Curitiba), reencontrou Geert, 88, com ajuda de um programa de TV holandês, em 2016. Também viúva, ela vivia em Puttershoek, na Holanda. Agora o casal faz planos para o novo namoro.

Segundo a papelada, tenho 89 anos. Mas não me sinto com essa idade.

Nasci na Holanda, na cidade de Dedemsvaart. Passamos um período de guerra, com os alemães ocupando o país. O mais difícil foi o ‘inverno da fome’, de 1944/1945.

Todo dia, na frente da leiteria dos meus pais, havia fila de pessoas em busca de comida. De tardezinha escurecia, e esse pessoal pedia lugar para dormir. As pessoas dormiam no feno das vacas. Não tinha cama, não tinha outro lugar. No outro dia cedo, tomavam café e seguiam adiante.

Na época veio essa menina, a Geerte. Meu pai havia pedido para a cooperativa arrumar uma ajudante para o tempo da colheita. A gente plantava centeio, aveia e batatinha e tinha a produção de leite.

Eu tinha 16 anos e ela estava para fazer 16. Me lembro até hoje. Um dia, eu estava no barracão sentado em um fardo de palha. E ela ali, rodeando.

Uma hora convidei ela pra sentar no meu colo. Ela rodeou, rodeou, duas, três vezes, e sentou. Quando chegou a hora, eu tentei dar um beijinho naquele lugar [aponta a boca], ela virou a cara e o beijinho aterrissou aqui [aponta o pescoço]. Isso eu conto, ela também. Ninguém esqueceu.

JUNTOS

Ficamos pouco mais de um ano juntos. Depois tivemos que nos separar. Eu fui fazer estágio em outra cidade, e ela teve que voltar para casa para completar os estudos.

Em seguida, tive que servir o Exército na Holanda por seis meses durante a guerra e depois me mandaram para a Indonésia. Perdemos o contato. Não chegava carta lá.

Voltei da Indonésia depois de dois anos. Na volta, conheci a mãe dos meus filhos em um baile. O nome dela é Marchien, mas aqui no Brasil chamam de dona Maria, que é mais fácil. Tivemos seis filhos. Perdemos um em um acidente de caminhão.

Viemos para o Brasil em 1953, quando tinha 25 anos, a convite de uma cooperativa que estava se organizando com imigrações. Vim cuidando de 125 novilhas. Não perdemos nenhuma. Dois meses depois a firma me avisou que eu podia voltar quando quisesse. Mas quando vi tanta terra boa, quis ficar.

Trabalhei um ano para uma família de fazendeiros, depois um ano em uma oficina. Então consegui comprar um terreno pra fazer uma granja. Com o tempo, vendemos a chácara em Carambeí (PR) e comprei outra maior em Ponta Grossa. Até hoje a minha caçula cuida de lá.

Há cinco anos, eu e minha mulher fizemos uma consulta de rotina. Na hora de tomar a pressão da minha esposa, vi alguma coisa estranha no rosto do médico. Perguntei se estava tudo em ordem, ele disse que ela seria internada imediatamente. No dia seguinte cedo, ela queria ir no banheiro. Chamei a enfermeira, que já chamou o médico.

Eles começaram a tentar bombear ar, mas Marchien não voltou mais. Ela tinha embolia pulmonar. Foi a última vez que falei com ela.

Eu voltei a morar sozinho numa casinha na granja. Meus filhos começaram a se preocupar de eu ficar lá sozinho. Então comecei a ir de casa em casa. Três dias na casa de um filho, três dias na outra. Eu fiquei cansado desse vaivém e não queria atrapalhar, meus filhos trabalham o dia inteiro. Aí resolvi vir aqui para o lar de idosos.

Na Holanda, Geerte também casou e teve filhos. Aqui, comecei a me lembrar daquele inverno que a gente se conheceu. Fazia 72 anos que não falava com ela, minha primeira namorada. Pensei: ‘O que será que houve com ela?’.

REENCONTRO

Vi um programa de TV holandês chamado ‘Memories’. Escrevi uma cartinha a caneta para o programa, relatando a nossa história. Depois de dez dias me telefonaram.

Queriam que eu fosse para a Holanda para procurar por ela. Eu disse que não sabia nada dela, nem se estava viva. Eles disseram que iam ver.

Passaram mais 12 dias, telefonaram de novo, falando ‘seu Prins, tá de mala pronta? Nós achamos ela’. Eu disse: ‘Se nesse momento você me tomar a pressão, vai faltar espaço para o ponteirinho’.

Uma filha e um genro foram comigo. Eles não ficaram chateados de eu encontrar uma ex-namorada, me entendem.

Depois eu vi no programa quando chegaram na casa de Geerte. Perguntaram para ela se antigamente, no tempo de guerra, ela tinha um namoradinho. Ela disse ‘É o Klaas?’. Aí ficou boba quando disseram que sim. Ela também já é viúva.

Perguntaram onde queria o reencontro. Não tive dúvidas: o barracão onde sentamos no fardo de palha e quase demos o primeiro beijo.

Quando chegamos lá, atrás da estrebaria, estava cheio de gente que foi ver. Ela já estava lá sentada no mesmo lugar me esperando.

Perguntei para a moça da TV se preferiam que eu fosse cavalheiro, chegar e beijar a mão dela. Ela falou: ‘Faz do jeito que preferir’. Eu disse: ‘Então deixa por minha conta’. Cheguei e já dei um beijo.

Depois disso, ela veio para o Brasil, 42 dias, entre março e abril [deste ano]. Minha filha arranjou uma cama de casal para ficarmos juntos. A gente se deu bem, disso eu não tinha dúvida nenhuma.

Depois Geerte teve que voltar para a Holanda, porque a filha se preocupou. Eu entendo, também tenho filhos e netos. É difícil. Nos falamos duas vezes por semana, por telefone. Agora vou para Holanda visitá-la no dia 10 de agosto. Nós queremos ficar juntos. Quando for a hora. Hoje, se puder.”

 

Texto: Amanda Audi, FSP

Imagem: Reencontro de Klaas Prins com Geerte Valk na Holanda, após ficarem 72 anos separados

 

(JA, Ago17)