Andei lendo nos jornais alguns artigos sobre a intolerância, praga que assola grande parte do mundo, inclusive o nosso Brasil cor de anil. Em especial, trataram do uso abusivo da internet e das chamadas “redes sociais” (frequentemente antissociais) para propagar tendenciosidade, paranoias, calúnia e negação do outro como pessoa. Pesquisas têm constatado que no Facebook e plataformas semelhantes, as pessoas tendem a compartilhar “informações” que vêm ao encontro de seus preconceitos, sem se darem ao trabalho de apurar a veracidade dos fatos.

Vou apresentar resumidamente três artigos. O primeiro, inicialmente publicado no “Washington Post”, saiu em “O Estado de S. Paulo” de 18/1/16, sob o título “O que aprendi sendo ‘trolado'”, e o autor é Fareed Zakaria, jornalista americano nascido na Índia. Conta ele que recentemente foi alvo da chamada “trolagem”, palavra que designa postagens agressivas em que indivíduos inventam informações provocadoras a respeito de uma pessoa ou grupo social e passam a difundi-las. No caso, certo “website” postou um texto dizendo Zakaria teria defendido o estupro “jihadista” de mulheres brancas. Sem atentarem para a falsidade e o absurdo da acusação, muitas pessoas, e também outros websites, passaram a repassá-la. Não faltou quem exigisse a demissão de Zakaria, sua deportação e até mesmo a morte. Houve mesmo quem telefonasse tarde da noite para sua casa, despertando e ameaçando as filhas menores.
“Bastaria − escreve ele − um minuto para clicar no link e ver que a postagem original partira de um “website” de notícias falso (…). Bastaria um pouco de bom senso para perceber o absurdo da acusação. Mas nada disto importava. As pessoas que propagaram as informações não estavam interessadas nos fatos, mas em nutrir o preconceito.”

Zakaria conclui defendendo a criação de mecanismos melhores para que as pessoas distingam a verdade da mentira (é claro que ele está pensando em pessoas que efetivamente queiram fazer essa distinção). E antes do final menciona a experiência certa vez feita por dois psicólogos. “Eles dividiram os alunos em dois grupos com base nas respostas que deram a um questionário: os muito preconceituosos e aqueles com menos preconceito. E solicitaram a cada grupo que discutisse alguns temas controvertidos. Posteriormente as perguntas foram formuladas novamente. Os estudos revelaram um padrão surpreendente. Apenas conversando um com o outro, os alunos preconceituosos se tornaram ainda mais radicais e os tolerantes mais tolerantes.”

O segundo artigo, também publicado no “Estadão” (5/2/16 a partir de um original do “New York Times”), é de autoria de Thomas Friedman e narra a trajetória de Wael Ghonim, egípcio que teve participação importante no movimento da Praça Tahir, que levou à derrubada da ditadura de Hosni Mubarak. Em julho de 2010, ao ver na internet a foto de um jovem que fora morto pela polícia, Ghonim criou no Facebook uma página anônima sob o título “Somos Todos Khaled Said” (assim se chamava a vítima). Em três dias, a página teria mais de 100 mil seguidores, logo eles seriam milhões.

Hoje, com o olhar retrospectivo, ele lamenta que o movimento tenha fracassado em construir um consenso e que a luta política tenha levado a uma polarização extremada. ‘Partidários do Exército e radicais islâmicos usaram redes sociais para difamar uns aos outros enquanto o centro democrático, que Ghonim e muitos outros ocupavam, era marginalizado. Sua revolução foi roubada pela Irmandade Muçulmana e, quando esta fracassou, pelo Exército, que então deteve muitos dos jovens seculares que primeiro levaram sua energia às ruas.’
Na sequência do artigo, Friedman transcreve o que Ghonim concluiu sobre as redes sociais − e que, no meu modo de ver, se aplica muito bem à presente situação brasileira. “Primeiro, não sabemos como lidar com rumores. Boatos que confirmam os preconceitos das pessoas agora recebem crédito e são disseminados. (…) Segundo, tendemos a nos comunicar somente com pessoas com as quais concordamos (…). Em terceiro lugar, discussões “online” rapidamente originam multidões enfurecidas. É como se esquecêssemos que as pessoas por trás das telas são realmente pessoas de verdade. Em quarto lugar, tornou-se realmente muito difícil mudar nossas opiniões. Em razão da velocidade e da concisão das redes sociais, somos forçados a apressar conclusões e escrever opiniões afiadas em 140 caracteres sobre complexos temas mundiais. (…) Em quinto lugar − algo que, segundo ele, é a questão mais crucial −, atualmente nossas experiências nas redes sociais são projetadas de tal forma que beneficiam a publicação em detrimento dos compromissos, os ‘posts’ em relação às discussões, comentários rasos em vez de conversas profundas. É como se concordássemos que estamos aqui para falar para cada um, em vez de falar com cada um.”
Finalmente, no artigo “Uma Guerra Civil Estúpida” (“Folha de S. Paulo 7/2/16), Clóvis Rossi cita uma passagem em que o Pew Research Center, dos Estados Unidos, retrata o clima de guerra civil existente em certos setores da opinião pública americana. “Muitos, em cada partido, negam, agora, os fatos dos outros, desaprovam o estilo de vida dos outros, evitam a vizinhança dos outros, impugnam os motivos dos outros, não conseguem digerir as fontes de notícias dos outros e trazem diferentes sistemas de valores para instituições fundamentais como religião, casamento e paternidade. (…) É como se pertencessem não a partidos rivais, mas a tribos alienígenas.”
Com toda a razão, Rossi entende que o diagnóstico vale mais ainda para o Brasil. Não se trata, diz ele, de pedir neutralidade às pessoas, e é realmente desejável que elas tomem posições diante dos grandes temas nacionais e internacionais. O que não cabe, porém, é a pretensão de se achar dono da verdade e negar que os que estão em outras posições possam ter pelo menos uma parte de razão.” Bôa Nova

“Naturalmente, somos levados a dar atenção, a ouvir, àqueles que repetem as nossas próprias ideias.”

(JA, Fev16)