“Sempre gostei da distinção clássica rostos vs. nomes. Você sabe: há pessoas que são boas com rostos. Outras são melhores nos nomes.

Eu pertenço a uma terceira categoria: nem rostos nem nomes. Já pensei que era demência precoce, um efeito secundário de certas medicações. Hoje aceito a minha condição, que piora com a idade.

Conheço o nome de poucos amigos -os mais chegados, digamos. O resto é silêncio para mim, razão pela qual uso tantas vezes o tratamento ‘meu caro amigo’ e ‘minha cara amiga’. As pessoas pensam que é simpatia natural. Não é. É ignorância onomástica pura.

E, sobre rostos, sou capaz de identificar as feições das pessoas que partilham os meus dias. O resto, lamento, é neblina.

E foi assim que me encontrei no trem que liga Porto e Lisboa, uma viagem que faço várias vezes por mês. Sentado no meu canto, lia qualquer coisa de um autor cujo nome me escapa. E um rosto, a uns dez metros de mim, cumprimentou-me com um sorriso.

Olhei para o rapaz, reconheci a cara de um passado longínquo -mas o nome, ‘hélas!’, era tão nítido como a paisagem que fugia pela janela. Sorri de volta.

Ele levantou-se, aproximou-se, cumprimentou-me. ‘João, não acredito!’ Eu também não acreditava. ‘Meu caro!’, respondi eu.

Ele, animado pelo reencontro, sentou-se ao meu lado. E começou a evocar episódios do passado e a chamar outros nomes para a sua dança nostálgica. ‘Lembras-te daquela vez em que…’. Eu respondia: ‘Claro que sim, meu caro’.

De vez em quando, quando ainda lutava contra a minha memória, arriscava: ‘Meu caro, tens conta no Facebook? Que nome usas, meu caro?’ E ele, naturalmente: ‘O meu’.

Foi então que desisti: quando a memória não ajuda, a senilidade pode ser uma graça. Basta olhar para o outro, quem quer que ele seja, como um personagem de romance, que desfia uma história que escutamos pela primeira vez.

Assim foi. O ‘meu caro’ contou o que fazia, o que não fazia, onde estava, com quem estava. Foi narrando triunfos, negócios mal sucedidos, paixões frustradas, simpatias e antipatias.

Eu, como um leitor interativo, perguntava ao ‘meu caro’ o que aconteceu depois, e depois, e ainda depois. Ele, sem saber que era o narrador do meu livro, ia iluminando esses caminhos, revelando encontros súbitos, enriquecendo as páginas invisíveis de um romance invisível com outros personagens, outros lugares, outras conversas memoráveis.

Passaram três horas. No fim, quando os passageiros desaguaram na estação, despedi-me do ‘meu caro’ como quem escreve crítica literária de jornal. ‘És excelente nos diálogos’, sentenciei, ‘mas não abuses dos adjetivos. Dou-te quatro estrelas, meu caro!’

Ele, divertido com o comentário, disparou à queima-roupa: ‘Tu continuas na mesma!’

Três horas de ignorância depois, era difícil discordar.

 

Houve um tempo em que eu alimentava a ilusão de que praticava exercício físico. ‘Costumo nadar três vezes por semana’, dizia eu, do alto da minha soberba, para médicos vários que se horrorizavam com os meus exames.

A família desconfiava. Os amigos desconfiavam. Tanto exercício e não havia, digamos, provas palpáveis?

Bom, palpáveis, demasiado palpáveis, havia: esse é que era o problema. Até que a minha senhora, intrigada com a condição do atleta, resolveu espreitar a piscina onde ele passava certas manhãs.

Encontrou-o na água, sim, equipado a rigor. Mas o atleta boiava. Para que a imagem fosse mais decadente, só faltava uma coxinha de frango numa mão e uma caipirinha na outra. Acabou-se a fraude.

Hoje, vou à academia todas as segundas. Tenho um ‘personal trainer’, com formação militar, que me obriga a correr, pedalar, esticar, dobrar, desdobrar e, de vez em quando, vomitar.

Amigos próximos, que também regressaram ao exercício depois de anos de atrofia, dizem que o dinheiro é mal gasto: quando saem da academia, sentem uma fome descontrolada que os obriga a ‘compensar’.

Sinto inveja deles. Fome? Quando abandono o meu calvário, nunca entro em restaurantes. Vou direto para a farmácia onde procuro uma combinação perfeita de analgésicos e anti-inflamatórios que me acompanham durante toda a semana.

O ideal, aliás, era tomar a medicação antes de começar o treino. Mas quando sugeri a ideia ao meu ‘personal trainer’, tive medo que ele me pudesse espancar.”

 

Texto: João Pereira Coutinho   |   FSP

 

(JA, Dez17)