Aos 80 anos, o empresário se considera um influenciador para a terceira idade, mas que só é ‘velhinho’ quando importunado

Um dos empresários brasileiros mais conhecidos, Abilio Diniz é também referência quando o assunto é longevidade. Dono de uma fortuna estimada em US$ 3,2 bilhões, o 11º homem mais rico do País no ranking da Forbes quer que os brasileiros envelheçam cada vez mais lentamente e com saúde. Ele conta que começou a se preocupar com o assunto aos 29 anos, após uma consulta ao cardiologista, que alertou sobre os riscos do excesso de tensão. Hoje, convicto de ser uma referência em qualidade de vida e estudioso sobre envelhecimento, Diniz não se considera um idoso. ‘Só quando me enchem o saco, eu falo pô, sou um velhinho, não me perturba.’

Ex-sócio do Pão de Açúcar, que herdou do pai e ajudou a transformar no maior grupo varejista do País, o atual presidente do conselho de administração da BRF e um dos maiores acionistas do Carrefour, Abilio Diniz afirma que o maior impacto econômico do envelhecimento da população se dá no consumo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

O Brasil já não é mais um país jovem. Na sua opinião, qual o impacto econômico deste movimento de rápido envelhecimento da população?

O impacto do envelhecimento na economia é enorme e vem sendo estudado no mundo inteiro. Hoje é fácil passar dos 80 anos e consumindo. Este é o maior impacto: no consumo. Seja para se divertir, viajar ou comprar, mas participando da vida, assim como os jovens.

Por outro lado, os que se aposentam criam um problema, pois alguém tem de pagar pela aposentadoria deles. É um problema que todos os países enfrentam. Chega-se a um ponto em que morre menos gente do que nasce. Ao mesmo tempo, surge um novo mercado de consumo.

Em abril, em comemoração ao seu aniversário de 80 anos, o senhor reuniu especialistas internacionais sobre envelhecimento em um evento em Sintra, em Portugal. Qual foi o objetivo desse encontro?

Estou voltado para que as pessoas não sintam que envelhecem. O evento do meu aniversário, o Plenitude, foi pensado para as pessoas se preocuparem com algumas coisas que são importantes na vida, com base em meus pilares: atividade física, alimentação, controle de estresse, autoconhecimento, espiritualidade e amor. Assim, elas poderão viver mais e com qualidade. Minha intenção é estudar e adquirir mais conhecimentos com gente que é referência no mundo nesses temas. Sem esforço exagerado, sem sacrifício, porque eu detesto sacrifício. Fazendo as pessoas cuidarem mais dos seus corpos, das suas cabeças, de si mesmas, dos seus relacionamentos, da espiritualidade, elas vão envelhecer muito mais tarde. Assim, poderemos ter um cara de 95 anos fazendo as mesmas coisas do que aos 70.

O senhor acha que o governo está preparado para este movimento?

Acho que os governos estão se preparando. Em alguns países, a conscientização se deu há mais tempo. No Brasil, a consciência de que é preciso dar mais condições de vida para o idoso é recente. Não existem aqui órgãos governamentais cuidando desse assunto. Eu nem sei se deveriam existir, mas não vejo uma preocupação grande nesse sentido.

Há especialistas que acreditam que políticas voltadas unicamente a idosos podem ser excludentes.

Normalmente, quem se exclui da sociedade é a própria pessoa quando envelhece. Isso porque ela tem mais dificuldade de locomoção, o que faz com que ela deixe de participar. Você fala ‘vamos em tal lugar?’, e ela não vai. O problema da locomoção é sério e, com isso, o espírito acaba envelhecendo. A cabeça, também. As pessoas vão se restringindo a seu pequeno mundo e aí ocorre um processo de envelhecimento acelerado. No nosso evento, o Aubrey de Grey, gerontólogo renomado e um dos palestrantes, comentou sua teoria, de que as pessoas não ficam doentes e envelhecem; elas ficam doentes porque envelhecem. Porque o corpo vai se deteriorando e propicia a possibilidade de mais doenças. Se você trabalhar seu corpo no sentido de que ele fique mais jovem, a possibilidade de adoecer é bem menor. Isso, inclusive, impacta questões governamentais. À medida que as pessoas envelhecem e adoecem, vai custar mais para o Estado mantê-las, curá-las e tratá-las. Se você se conscientizar disso e se preparar hoje para seus 80 anos, 90 anos, tem chances de chegar a 110 ou 120 anos.

E o lado financeiro?

Claro que dinheiro é importante. Por mais eficiente que você seja na velhice, você não vai conseguir produzir tanto quanto você produzia quando era mais novo. Qualquer um vai sofrer se não tiver recursos. A medicina nos dá hoje a possibilidade de viver muito mais. O importante é conseguir viver com qualidade, é a pessoa se preparar (para o envelhecimento). E tem muita gente que se prepara.

Muitos especialistas dizem que deve haver uma conscientização por parte da sociedade em aceitar que envelheceu. Mas há muita gente com mais de 60 anos que não se considera idosa. É o seu caso?

Acho que varia de pessoa para pessoa. Tem muito cara que é idoso e se esconde atrás da idade. Quando as pessoas me enchem o saco, por exemplo, eu falo: ‘Pô, eu sou um velhinho, não me perturba’. Você se esconde, certo? Se você perguntar para um coleguinha dos meus filhos mais novos com que idade que as pessoas ficam idosas, eles vão dizer ‘a idade dos meus avós’. Se você perguntar isso aos meus filhos – eu nunca perguntei, não quero mexer nesse vespeiro (risos) -, eles provavelmente vão parar para pensar: ‘Meu pai não é idoso’.

O senhor se considera idoso?

No meu caso, acredito que não sou velho. É uma questão de crença, de percepção. Faço hoje tudo o que eu fazia 30 anos atrás. Claro, não desço as montanhas na mesma velocidade, mas continuo esquiando. Continuo fazendo meus esportes, correndo, nadando, jogando squash e sigo trabalhando. Passei recentemente três semanas na França a trabalho. Gosto da minha casa, da minha família. Então vou, trabalho e volto. Enquanto estiver fazendo isso vou me considerar idoso? Para quê? Eu trabalho hoje, mas não na mesma intensidade, porque não preciso, mas tenho a mesma capacidade. Quanto a relacionamentos, melhorou. Enquanto a cabeça vai bem, os relacionamentos vão cada vez melhor. Casei há 12 anos com minha segunda mulher, tenho uma filhinha de 10 anos e um filhinho de 7. Minha filha mais velha tem 55. Olha o gap nesse negócio! Isso é uma coisa fantástica, dá uma força que não tem tamanho. Enquanto eu estiver sentindo a vida desse jeito, eu não me considero nem idoso, nem velho, nem nada. Estou seguindo a vida.

Evitar se considerar idoso não leva a crer que o termo pode ser pejorativo?

Para mim, a idade não faz diferença. Se continuar fazendo as mesmas coisas que anos atrás, não tem que se considerar um idoso. Tem que se considerar um vencedor. Meu propósito é longevidade com qualidade. Esse termo idoso, velho, eu acho que não é legal, não. Veja, é pejorativo, sim… estou pensando nisso agora.

Quando o senhor percebeu que era necessário começar a se preparar para o envelhecimento?

Aqui na Península (empresa de investimento de Abilio Diniz), estudamos muito essa questão de envelhecimento, da atividade física, da alimentação. Sou cobaia de mim mesmo. Estou tão interessado nesse tema porque adoro minha vida, minha família, as coisas que eu faço, meu trabalho, meus esportes. Quero que isso continue o máximo possível. Na realidade, comecei a fazer 80 anos com 29 anos. Eu já era um cara muito bem sucedido nos esportes e na carreira. Tinha sete ou oito supermercados, estava bem de vida, mas eu era um cara extremamente tenso. Um dia, fui ao médico e ele me mandou ir a um cardiologista. Eu sentia dores no peito. Depois de fazer o teste ergométrico na bicicleta, o cardiologista disse: ‘Você não tem nada, por enquanto. Mas vai ter, porque você é muito tenso. Não adianta cuidar só dos alicerces da casa, tem de cuidar do telhado’. Em seguida, por indicação do (ex-ministro) Luiz Carlos Bresser-Pereira, fiz minhas primeiras sessões de análise. Se me conheço melhor, eu me relaciono melhor. Ter ido a um psicólogo foi o começo de uma preparação para uma vida melhor. Depois, coloquei essas coisas para fora, no meu primeiro livro, em 2004. E que sucesso ele fez! É incrível a quantidade de gente que eu encontro que diz que começou a fazer esporte, que começou a prestar atenção na espiritualidade, porque leu meu livro. Quando isso vai numa crescente, automaticamente você vai prestando mais atenção.

O senhor se sente um influenciador?

Acho que sim. Quero ser e preciso cuidar de ser sempre uma referência para o bem. Acho que sou uma referência de um cara que se cuida, que envelhece bem, que tem ética, tem honestidade, que tem uma linha de conduta na vida. Uma das coisas que comento sempre para meus alunos (do curso Liderança 360º) na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo é que as pessoas hoje têm muito pouca referência. Na medida em que eu sei que sou referência, de determinado número de pessoas, jovens principalmente, aumenta ainda mais minha responsabilidade.

Como o senhor analisa as políticas do setor privado quando o assunto é a terceira idade?

Estou lá no Carrefour global, sou um dos três controladores, e nós tínhamos no nosso estatuto que para ser presidente-diretor-geral (PDG; presidente do conselho e CEO) a idade limite é 70 anos. Outra regra era que, se tiver mais de um terço do conselho acima de 70 anos, o mais velho tem de sair. Acabamos de mudar isso para 75 anos. Até em benefício próprio (risos). Se for ver, o mais velho sou eu. Pô, um dos nossos sócios está com 70 anos agora e fit, completamente bem. Então ele não poderia ser PDG? Claro que poderia, né? As empresas estão se adaptando melhor a isso, empurrando para cima. O assunto é um tanto novo no Brasil, é uma questão um pouco cultural.

Durante sua gestão no Grupo Pão de Açúcar foi implementada uma política de inclusão de idosos. No Carrefour deve acontecer algo parecido?

O Carrefour está em um momento de transição. A administração na França passa por mudanças. Foi eleito um novo PDG agora e eu acho que vai haver muito mais campo. Está entrando um cara de 44 anos (Alexandre Bompard), jogador de tênis, corredor, um cara diferente. Acho que tem muita coisa que precisa ser feita nesse sentido. Não é que o Carrefour vive à parte do mundo. Tem coisas que fazemos em parceria com governo, mas essa questão de cuidar mais da saúde, da tensão, da alimentação, do exercício físico, como eu tinha no GPA, ainda não chegou, mas acho que vai chegar. Acontece que o idoso, quando chega a determinada faixa, normalmente sai da companhia. As empresas têm de trabalhar com as pessoas que estão lá dentro. No GPA, nós tínhamos um programa especificamente de terceira idade em que admitíamos gente para trabalhar nos caixas, para trabalhar em lojas. Eram trabalhos mais leves.

A BRF tem algum programa do tipo?

A BRF ainda não tem. Mas é um plano, ainda vamos chegar lá.

É possível que outras empresas abracem essa ideia?

É muito complicado. O mundo hoje tem carência de empregos. Há necessidade de muito mais postos de trabalho. Quando as pessoas envelhecem é preciso abrir espaço para os de baixo, para quem está chegando. Todo o avanço tecnológico acaba substituindo o homem pela máquina. Eu quero fazer uma construção para o bem: vou manter os idosos trabalhando.

Há espaço para que o jovem e o idoso trabalhem juntos?

É uma equação complicada. O melhor é preparar as pessoas para quando forem idosas, para que elas tenham uma vida digna, preparar para que elas façam poupança, acumulem capital, para que possam viver sem a necessidade de trabalhar.

O senhor passou pelo Conselho Monetário Nacional e pela Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade. O senhor tem vontade de fazer parte novamente do governo?

Entre 1979 e 1989, fui integrante do Conselho Monetário Nacional, foram dez anos da minha vida trabalhando para o governo. Nunca pretendia voltar. No governo Dilma, ela pediu para que eu ajudasse em uma câmara de gestão. Eu participei e acho que ajudei com alguma coisa. Mas uma coisa que eu tenho muito clara para mim: mais do que ajudar o governo, eu tenho que ajudar a criar empregos. Fazer as empresas crescerem, serem mais produtivas, mais eficientes e gerar mais empregos, essa é minha grande missão. Eu vou gerar mais empregos, pagar mais impostos e fazer a roda da economia girar com mais força. Meu papel principal é continuar como empresário, como gestor.

E quais os planos para voltados para a terceira idade?

Vamos dar continuidade (ao programa) Plenitude, estamos reunindo dados. Quero continuar essa obra, continuar a fazer algo que não seja só para mim, para repartir com a maior quantidade possível de pessoas. Esse é o ponto.

 

Entrevista: Teo Cury OESP

 

(JA, Jul17)