Visitei o Nepal há sete anos. Ficaram-me na memória as imagens de belezas naturais e artísticas, mas também de um país pobre e ainda por cima palco de acirrados conflitos políticos. Tal como aconteceu no Haiti, o terremoto veio atingir uma sociedade que estava especialmente despreparada para lidar com esse tipo de situação.

Katmandu é uma cidade feia num cenário bonito. A beleza vem das montanhas do entorno, mas para vê-las é preciso que as nuvens se dissipem. A feiura, da paisagem urbana, excetuados pontos específicos, como templos e outros prédios antigos; para agravar, havia um racionamento de energia elétrica, e partes da cidade ficavam sem luz várias horas por dia.
A cidade tem um milhão de habitantes e está situada num vale. O ar é poluído: todo dia voltávamos para o hotel com o rosto impregnado de fuligem. Previdentes, os japoneses que andavam por lá usavam máscaras antipoluição e seguiam imperturbáveis, em grupos disciplinados e simétricos.

No romance Guru do Amor, o escritor nepalês Samrat Upahyay expressa a percepção do personagem Ramchandra sobre a rapidez com que a paisagem de Katmandu se deteriorou no final do século XX: “Em poucos anos, a cidade inchara tanto que estava a ponto de explodir. A cada dia, pessoas das montanhas e colinas do Norte e das planícies do Sul migravam para ali, tentando sobreviver. Nos seus vilarejos, a terra não produzia boas safras, e a inflação crescente os impossibilitava de alimentar suas famílias. Devido ao fluxo constante de migrantes, a silhueta da cidade se tornara pontilhada de antenas de satélites, e não se podia ir a nenhum lugar sem inalar a fumaça dos riquixás e dos ônibus velhos e caindo aos pedaços. Ramchandra entendia o sofrimento daquelas pessoas pobres que haviam tido que abandonar vilarejos e aldeias, mas o resultado era que demasiadas mãos estavam a cutucar as entranhas de Katmandue a se alimentar delas. Dali a pouco, só iria restar sua carcaça”.

A língua oficial é o nepali. Em Katmandu, porém, o inglês é amplamente falado. Em toda parte, inclusive em prédios públicos, os letreiros estão em nepali e inglês. Embora o país fique meio encaixotado entre a Índia e a China, Katmandu tem algo de ocidentalizada. Talvez consequência do fluxo de viajantes, em grande parte jovens, que vão percorrer trilhas nas montanhas ou praticar alpinismo – o principal chamariz turístico do Nepal. Mas também se nota a presença das tradições, e a religiosidade é visível: a toda hora víamos pequenos oratórios hinduístas ou budistas, com gente entrando e saindo. Na área central de Katmandu, encontra-se o Thamel, bairro de cara moderna: restaurantes de culinária variada, bares simpáticos, lojas de boa qualidade e uma excelente livraria, a Pilgrim’s. Entre os doces que uma pequena confeitaria oferecia, vimos o Brazilian cake, o nosso bom-bocado. Não estava grande coisa, mas fizemos nossa boa ação, ensinando ao balconista a palavra em português.

Em caminhada pelo centro, passamos na frente do Palácio Real, que ocupa uma área  enorme. Um mês antes, o improvisado parlamento, buscando uma saída para a crise política, votara o fim da monarquia e convocara uma constituinte. O rei ainda estava por lá, mas ninguém sabia direito onde. Era figura detestada, na opinião dos nepaleses com quem conversamos. Não por acaso, os muros do palácio exalavam cheiro de urina, aponto de ser desagradável caminhar pela calçada adjacente − para muitos nepaleses, talvez fosse o modo de dizer o que achavam da monarquia reinante. Há seis ou sete séculos, o Nepal esteve dividido entre várias cidades-estados, cada uma com seu rei. Na região central, havia três reinos rivais, sediados em cidades muito próximas: Katmandu, Patan e Bhaktapur. Conhecidas como Durbar, as praças fronteiras aos palácios reais se preservam até hoje, e a Unesco as considera patrimônios culturais da humanidade. A forma arquitetônica predominante é a do pagode, e há belos e requintados trabalhos de madeira a serem admirados. [Pelo noticiário de abril/2015, algumas dessas riquezas foram destruídas pelo terremoto] Para ingressar em uma Praça Durbar, o turista deve pagar uma taxa. Os nepaleses circulam por ali de graça, e os guardas facilmente identificam quem é quem.

É comum no Nepal o sincretismo religioso entre hinduísmo e budismo, e muitos se declaram praticantes de ambos. Ao percorrermos a Praça Durbar de Patan e suas redondezas, encontramos locais de um e de outro. Curiosamente, vimos lugares de culto que se situavam no pátio interno de prédios onde havia pessoas morando.

Num dos palácios da Praça Durbar de Katmandu, mora uma menina que muitos nepaleses cultuam como deusa viva, a Kumari. Ela seria a encarnação de Taleju, a deusa protetora do Nepal. A menina que se candidata a deusa se submete a várias provas; uma delas é passar uma noite inteira sozinha, sem demonstrar medo, numa sala onde jazem cabeças sangrentas de búfalos recém-sacrificados às divindades. Uma vez entronizada no novo status, ela não pode mais pisar no chão, a não ser dentro do palácio: assim como todo o corpo, seus pés são sagrados. Quando sai, é carregada num palanquim folheado a ouro. Ao vir a primeira menstruação, Taleju deixa o corpo da menina − diz a crença −, e ela deve ser substituída. Como se diz que a ex-deusa terá dificuldade para arranjar marido, pois há a superstição de que casar-se com essas moças dá azar, o Estado passa a pagar-lhe uma pensão vitalícia. Essa pensão tem seu charme, e de vez em quando aparece um corajoso que se anima a desposar uma ex-deusa; parece que nenhum deles se deu mal. Mas não deixa de ser original esse currículo, em que a pessoa começa como divindade e termina como pensionista da Previdência. Recentemente, as ex-deusas andaram reclamando que o valor das pensões estava baixo.

Fomos visitar o Templo de Pashupatinath, num parque atravessado pelo rio Bagmati. É considerado o principal templo nepalês de Shiva, deus do hinduísmo. De tão poluído, o rio é escuro. Mulheres pobres lavavam roupa em suas águas, cinquenta metros abaixo do lugar onde se cremavam mortos. No templo propriamente dito, não pudemos entrar: o ingresso é restrito a hinduístas. No parque, circulam muitos sadhus, ou “homens santos”, ascetas do hinduísmo que renunciaram à vida em sociedade para seguirem seu caminho espiritual. Como em qualquer outra fé, também aí existem diversos graus de autenticidade e de sanidade. Ouvimos que há sadhus que se oferecem, pela módica importância de cinquenta dólares, a amarrar uma pedra pesada no seu pênis (no dele, bem entendido!) e deixá-la dependurada para ser fotografado na pose. Não me interessei: tinha melhor destino para meus parcos dólares, e suponho que eles tenham mais o que fazer com seus indiscretos pertences.

 

Visitamos Bodhnath, lugar sagrado do budismo. Existe ali uma praça fechada, que tem no centro uma enorme estupa, monumento religioso de forma redonda, encimado por uma grande cúpula. Simboliza o espírito iluminado e é vista como indicação do caminho para a pessoa chegar a tal estágio. Uma prática recomendada é caminharem volta da estupa;  enquanto estivemos lá, várias pessoas faziam isso. Dizem que favorece a meditação; no mínimo, serve de exercício aeróbico. Com 36m de altura, a estupa de Bodnath é uma das maiores do mundo. O lugar se situa na antiga rota de mercadores tibetanos que vinham ao Nepal. Antes de entrar em Katmandu, eles paravam na estupa para rezar. Há cinquenta anos, ao deixarem o Tibet, muitos refugiados se estabeleceram por ali, inclusive em mosteiros que surgiram, e Bodnath passou a ser o bairro budista de Katmandu. Ao sairmos, olhei para a janela de um prédio vizinho e li o letreiro com que uma empresa anunciava seus serviços: “Buda Express”; tive a impressão de que se tratava de uma contradição nos próprios termos.

 

Fomos também ao mosteiro de Kopan, no alto de uma colina fora da cidade, com belíssima vista para o vale. Introduziram-nos a uma sala, e logo chegou, sorridente, a monja que conversaria conosco. Não tinha feições orientais: era branca, rosadinha, de olhos bem azuis. Alguém lhe perguntou como se chamava, e escutei-a responder “Uaiuai”. Não era mineira, e sim australiana, e o nome se escreve “Wywy”. Sentamo-nos no chão, sobre almofadas; e lá fiquei, de pernas cruzadas como um Buda, até que me cansei e procurei modos mais jeitosos de acomodar as juntas. A monja falava baixinho, em inglês, e o guia  ia traduzindo. Ela começou mostrando um vidro que trazia e disse que ali dentro estava uma taturana que apanhara no seu quarto, naquela manhã. E passou a discorrer sobre a importância de preservarmos todas as formas de vida, mesmo insetos e outros pequenos animais. O mosquito da dengue penhorado agradece. Demos byebye a Wywy, e alguns companheiros de viagem aproveitaram para ir dar voltas na estupa, de modo a obter maior refinamento espiritual. As dependências do mosteiro são amplas. Há acomodações para hóspedes que queiram passar uns dias tomando lições de budismo, meditando, dando voltas na estupa, contemplando as paisagens e fazendo cafuné em taturanas. Um quadro de avisos deixa claras algumas normas a serem obedecidas elo hóspede: não matar, não roubar, não mentir, abster-se de sexo e também de álcool e drogas (inclusive tabaco), não usar roupas transparentes nem muito curtas. Que ninguém reclame que eu não avisei!”    Bôa Nova amdg
(JA, Abr15)