‘Ô rage! Ô désespoir! Ô vieillesse ennemie!’ (Corneille, Le Cid, 237)

– Mas Pai, isso foi há muito tempo. O seu cabelo era preto.

Quando ouvi um filho dizer isso, levei um choque. Na minha cabeça − pelo lado de dentro, claro! −, eu supunha ter muito mais cabelos pretos do que brancos. Não que fosse cego para a imagem matinal no espelho. Iludia-me, porém, na ficção de que os fios brancos seriam exceções quase imperceptíveis − como diria o poeta Virgílio, ‘esparsos náufragos na vastidão do oceano’ (‘rari nantes in gurgite vasto’). Vaidade tola? Pode ser, mas que atire a primeira pedra quem nunca falseou a realidade no intuito de sentir mais conforto.

É verdade que num passado distante − bem distante, no tempo do Karmann Ghia −, já topara com certo tipo de encanecimento. Foi na barba, que eu então envergava orgulhoso: com perplexidade, comecei a notar que seus fios branqueavam, enquanto a cabeça permanecia preta. Assustado, perguntei-me o que pensariam de minha incoerente figura − talvez que eu usaria mais a mandíbula que o cérebro. Por via das dúvidas, raspei a barba.

Dizem que negações da verdade capilar são manhas masculinas − mulheres ficariam ouriçadas com eventuais fios brancos e os caçariam um por um. Mas entre os homens, há muitas exceções, e uma delas é o Mastroiani, assim apelidado por acharem-no parecido com o ator − não em Dolce Vita, mas no final da carreira, bem no finalzinho. Certa vez, ao nos encontrarmos na rua, ele me saudou:

–  Como você está bem!!! Só falta, mesmo, um trato no cabelo. Uma tinturinha leve…

E foi logo indicando o cabelereiro que o embeleza. Eu, que me recuperara da observação do filho, sofri novo abalo. Refreando a zanga, respondi que tal ideia ainda não fazia minha cabeça. Tentei mudar de assunto, mas não adiantou. Repetitivo e teimoso, ele ficou insistindo na sugestão, o que me fez lembrar do provérbio mexicano: ‘si los años hicieran sabios, no habría viejos tontos’. Desde então, quando vou caminhar para os lados do Mastroiani, sempre ponho o boné e o levo bem enterrado na cabeça.

Com o passar dos anos, os cabelos continuavam embranquecendo, fio após fio. Ou então ‘azulavam’, deixando clareiras à mostra (epa! ‘azular’ é expressão arcaica, do tempo do Cadillac…).

Como se não bastasse a cor dos cabelos ou sua ausência, passei a ser fustigado em outras frentes. Tudo bem, a idade deixa marcas, como pensei ao reencontrar uma amiga que não via há tempos. Achei-a algo decaída e procurei conter-me para não deixar transparecer desapontamento. Mas o que ela perdera em viço e charme, mantivera na rapidez no gatilho. Antes que eu abrisse a boca, me sapecou dois tapinhas no abdômen e fulminou:

– A sua barriga aumentou!

Que desaforo! Chamar de barriga minha musculatura abdominal! E eu que esperava elogios ao perfil saradão…

Acuavam-me por toda parte. Independentemente de como me sentisse, dissesse o que dissesse a mim mesmo, as pessoas em volta me enxergavam como um rematado macróbio. Foi assim que me tornei alvo de dois movimentos distintos: de um lado, gentilezas nem sempre bem-vindas; de outro, o marketing focado na ancianidade.

Infatigáveis, os gentis pululam a todo momento. Por exemplo, oferecendo-me prioridade nas filas de agências de correio, cartórios, bancos e outros locais de atendimento. ‘Oferecer’ é modo de dizer, o que recebo é intimação.

Não sou entusiasta desses privilégios e até sinto desconforto ao passar à frente de pessoas que talvez estejam mais atarefadas. Confesso que às vezes cedo à tentação, sobretudo em filas compridas (já dizia Groucho Marx: ‘estes são os meus princípios, mas se você não gostar, tenho outros’)… Mas normalmente retiro a senha básica e fico despreocupado − para isso, sempre levo um livro comigo. Em vão! Logo me descobrem, mesmo estando encolhido no fundo da sala. E lá vêm os atendentes bradando ‘Preferencial!’ e me identificando de dedo em riste. Como se apanhado em travessura, dirijo-me encabulado ao balcão.

Entre os obsequiosos, também existem os dos transportes públicos, que se apressam em me ceder o assento assim que ponho o pé num ônibus ou vagão de metrô. Fazem-no em voz alta, pois idosos não são lá muito bons das oiças. Recebo espalhafatosos acenos e até cutucões. Na primeira vez, reagi de mau humor, inconformado que me classificassem na categoria ‘sênior’. Hoje, limito-me a dizer que não preciso sentar-me, em pé estou bem, vou descer em seguida, tenho que compensar a vida sedentária, quero aproveitar para fazer alongamento, e por aí vai. Mas há quem nem assim sossegue. Foi o caso de certa matrona meio obesa, de batom vermelho vivo e pulseira de balangandãs. Gesticulando com o braço roliço e retinindo os metais, proclamava:

– Sente-se, senhor! São seus direitos constitucionais!

Não tive remédio senão apelar para um argumento irrespondível:

– Não posso mesmo, minha senhora. Não dá para me sentar. Estou com um furúnculo enorme na nádega.

As gentilezas não cessam. Outro dia, caminhava de mãos dadas com minha mulher quando uma moça que ia passando exclamou:

─ Que bonitinhos!

E nós, que acreditávamos irradiar a imagem de um par sexy, ou pelo menos romântico, de súbito nos vimos irremediavelmente desterrados para o reino dos ‘casaizinhos fofos’.

A bem da justiça, reconheço a boa intenção de quem nos dirige amabilidades sem nada ganhar com isso. Bem diferente é a tribo dos que tentam descolar um dinheirinho no mercado do idoso e − horror dos horrores! − me consideram pertencente ao seu público-alvo.

Foi o que sucedeu anos atrás em Salvador, quando passeávamos no Pelourinho. Do enxame de ambulantes nos assediando com fitinhas do Bonfim e suvenires variados, emergiu de supetão um atrevido que me perguntou:

– Compra Viagra, meu rei?

Chatice, mesmo, é ficar na internet limpando a caixa postal, constantemente assolada por spams que divulgam produtos e serviços. Ouvi dizer que são remetidos por robôs, coisa que eu, cidadão do Neolítico, tenho dificuldade para imaginar. Não faço a menor ideia do que esses sujeitos − se sujeitos forem − saberão de minha vida pessoal; mas acontece que eles se apresentam como sabendo muito, e têm propostas mirabolantes.

O primeiro impacto veio quando eu era novato na rede. Começara a receber e-mails oferecendo fraldas a precinhos camaradas. Na minha incorrigível ingenuidade, a impressão inicial foi que os remetentes se enganavam, julgando-me pai de criancinhas. De repente − ai, meu Deus! −, me caiu a ficha: fraldas geriátricas! Ri tanto que quase precisei de uma.

A saraivada de spams ameaça ser eterna. Alguns alardeiam planos de saúde para idosos − já dizia Terêncio que a velhice é, em si mesma, uma doença (‘senectus ipsa morbus’). Outros garantem a eliminação de rugas. Ou têm o topete de anunciar remédios contra calvície, como se eu não estivesse careca de saber que nenhum deles funciona.

A criatividade maior fica com a turma dos afrodisíacos. Os mais bem comportados prometem ‘cápsulas do prazer’, ‘gotas da paixão’, ‘chás que fazem subir a temperatura do amor’ e maravilhas semelhantes. Há os que apregoam ‘vamos turbinar sua noite’, ‘sua cama vai pegar fogo’ e outros espetáculos. E até quem tenha a petulância de afiançar: ‘aumente o seu amiguinho em x centímetros’… Por aí, já dá para imaginar o que ousam dizer os mais mal comportados…

Enfim, inúmeros percalços. Para contorná-los, ando pensando em procurar trabalho em algum campo que nunca experimentei. Por exemplo, o teatro. Com muito treino e sorte, talvez consiga o papel de Rei Lear. Ou então, comerciais de Corega.

Tudo isso para dizer que, mesmo com saúde − e nisso, não tenho direito de reclamar −, acho meio complicado envelhecer. Afinal, é a primeira vez.

 

Texto: Antônio Carlos Bôa Nova- AMDG

 

(JA, Set17)