“Há duas semanas, voltamos de um giro de duas semanas pelos Estados Unidos.

Excetuados os dias de reencontro de família, estivemos em três cidades − Nova Orleans, Washington e Boston − e gostamos de todas. Se eu tivesse que escolher uma, ficaria com a primeira, mas não a ponto de subscrever a maldosa tirada de que ‘só há três grandes cidades nos Estados Unidos − Nova York, San Francisco e Nova Orleans −; todo o resto é tipo Cleveland, em Ohio’.

Sem chegar perto da riqueza de Washington ou Boston, Nova Orleans é uma cidade que transpira informalidade, alegria − isso, apesar do trauma da inundação de 2005, causada pelo furacão Katrina. O apreço dos moradores pela cidade e o astral positivo que reinam ali devem ter ajudado no reerguimento.

Nova Orleans é marcadamente musical, e há enterros acompanhados por banda, com direito até a danças na rua. Diversas escolas têm suas bandas de música, e são tradicionais as competições entre elas. É assim que alguns futuros músicos de jazz, blues etc. têm sua primeira iniciação.

Em Washington, o que logo impressiona é a majestade dos espaços amplos − grandes avenidas diagonais e, sobretudo, o National Mall, vasta área verde entre o Capitólio e o Memorial de Lincoln, ladeada por museus e outros prédios públicos. Desde sua concepção no final do século XVIII, a cidade foi projetada para expressar valores da democracia, como a transparência e a abertura. No entender de Washington e Jefferson, uma nação fundada na soberania da população precisava de uma capital modelada como lugar de instituições democráticas, apartada da politicalha e corrupção. Mas não foi bem esse o rumo das coisas, e das intenções grandiosas, a maior herança foram os espaços grandiosos.

Em viagem anterior, encontramos diante da Casa Branca diferentes grupos de manifestantes, cada um com seus pontos de vista e demandas. Eles não estão mais lá, até mesmo porque a barreira de proteção foi deslocada para uma distância maior, e agora a Casa Branca só se vê de longe. Estilo Trump…

Em nossas viagens, sempre visitamos museus, e neles entramos em contato com culturas e civilizações de outros tempos e lugares. É uma experiência que enriquece nossa percepção e nos relembra, através da diversidade, o universal do ser humano e de sua obra de cultura.

Os excelentes museus do National Mall têm ingresso gratuito. Quem os administra é a Smithsonian Institution, criada na década de 1840 com base no legado do cientista inglês James Smithson, que jamais foi aos Estados Unidos. Filho ilegítimo de um nobre, Smithson, que sofreu preconceitos durante a vida, morreu rico e sem herdeiros. Crítico severo das barreiras sociais vigentes na Inglaterra, admirava a democracia americana e sua abertura de oportunidades. Ao fazer o legado, declarou: ‘Meu nome sobreviverá na memória das pessoas muito depois que já tiverem sido esquecidos os sobrenomes dos que me desprezaram’. Não deu outra.

Washington também tem sua vida nos bairros. Alguns deles com muito movimento e animação, como Georgetown. Outros bem sossegados, como aquele em que nos hospedamos − casas de classe média, muitas tendo no jardim placas com frases de Martin Luther King ou algum outro personagem.

Boston é uma cidade com forte presença da história e dos sucessivos recomeços de vida − o dos primeiros povoadores da Nova Inglaterra, que deixaram seu país premidos por divergências religiosas; o dos que no século XVIII desencadearam o movimento pela independência; e também o dos imigrantes europeus, notadamente irlandeses e italianos. A toda hora, víamos na rua grupos de estudantes ou de turistas percorrendo marcos históricos, por vezes levados por guias vestidos com trajes coloniais. Perto de nossa estação de metrô, um bar anunciava estar ali servindo ostras desde 1795, e os concorrentes vizinhos também exibiam credenciais antigas. Ainda bem que essa ancianidade toda não impediu as ostras que comemos ali de estarem bem fresquinhas.

Embora colonizada com base na liberdade de crença, a Nova Inglaterra se pautava por códigos de comportamento muito rigorosos − afinal, tratava-se dos Puritanos. No bairro onde ficamos, conta-se que por ter beijado sua mulher em público ao voltar de longa viagem, certo cidadão foi condenado a receber açoites em plena praça. Por via das dúvidas, eu e minha esposa tratamos de andar na linha.

Esses contrastes foram bem percebidos por Alexis de Tocqueville, jovem jurista francês de família nobre que visitou o país em 1831/32 e em seguida escreveu o clássico ‘A Democracia na América’. Para ele, um traço típico da sociedade americana era a forte ligação entre o espírito religioso e a ideia de liberdade, de modo que o mesmo indivíduo que era um crente sectário podia, ao passar à esfera política, mostrar-se desprovido de qualquer preconceito. Outro contraste que impressionou Tocqueville foi o existente entre o resoluto individualismo e a cooperativa participação em entidades comunitárias. Encontram-se aí elementos do modelo fundador da cultura americana, alguns deles em certa medida presentes até os dias atuais.

Mas é fato que hoje se veem atitudes de bastante abertura e tolerância aos comportamentos pessoais. Ao visitarmos uma igreja da United Church of Christ, encontramos um folheto expressando a receptividade às pessoas, fosse qual fosse a respectiva orientação sexual: ‘Aqui sou um filho de Deus, merecedor do mesmo amor e respeito que qualquer outra pessoa’.

Em nossa volta, tivemos demorada conexão em Miami e fomos almoçar na cidade. Dentro do ônibus, chamou-nos a atenção uma placa escrita em inglês, espanhol e francês: ‘Este assento é dedicado a Rosa Parks (1913-2005)’. É uma homenagem à costureira negra que em 1955 foi presa e multada em Montgomery, no Alabama,  por se recusar a ceder seu lugar no ônibus para um passageiro branco. O fato deflagrou uma onda de protestos e boicotes que levaria ao fim da segregação nos transportes.

Mais algumas observações pontuais:

* Tanto Washington como Boston têm sistemas muito bons de transporte público. Mais modesto, o de Nova Orleans também atendeu bem as nossas necessidades.

* Como em outros países que visitamos, o respeito ao pedestre é levado muito a sério. Mas neste caso, a exceção é mesmo o Brasil.

* Ao contrário do que imaginaríamos dos americanos, notamos relativa calma nos tempos e movimentos. Por exemplo, nas entradas e saídas dos vagões do metrô. Ou no tempo reservado ao pedestre para atravessar a rua (aqui, às vezes tenho que dar uma corridinha, no estilo daquele sujeito com a mala de dinheiro…). Também há mais silêncio, e quase nunca se buzina.

* Compramos uma torradeira. No apartamento, ao abrirmos a embalagem, minha esposa não gostou do revestimento metálico. Voltamos à loja para a devolução, que foi prontamente aceita: sem nos perguntar o porquê, o funcionário estornou no mesmo instante a importância no cartão de crédito. Em São Paulo, certa vez encontramos relutância ao devolvermos um aparelho claramente defeituoso.

Termino com uma citação de Mark Twain: ‘Viajar é fatal para preconceitos, para o fanatismo, e para as mentes estreitas’. “

Texto: Antônio Carlos Boa Nova, AMDG

Imagem: Barco tradicional do Mississipi, que hoje faz passeios com turistas em New Orleans

(JA, Jun17)