“- A velhice trás vulnerabilidade, é preciso se preparar para esta fase da vida.

Ouvi isto de uma senhora, chamada Brígida, quando, oportunamente, estávamos jantando. Ela me disse que morava em um apartamento, confortável, na região central. O filho se casou com uma moça e, por causa, dela ele lhe tomou o imóvel. É possível notar que mesmo que o filho tendo lhe causado o prejuízo, ela tira a responsabilidade dele, e a transfere para a nora.

– Aonde você mora, hoje – perguntei.

– A meia hora do centro. Vou de metrô, desço na estação, e ando uns quinze minutos até chegar em casa.

Disse ainda que seu namorado, também idoso, ficou sem renda, já que é a filha recebe a sua aposentadoria, administra o dinheiro, e fornece a ele apenas uma mesada. Este foi o diálogo que tive com esta Senhorinha, tão simpática.

Outra pessoa que conheci foi Dona Isa que, na faixa dos 72 anos conquistou uma vaga na universidade pública. A sua vitória saiu até no jornal da região. Entretanto, algumas pessoas não aceitaram o seu feito, a subestimaram, ridicularizaram, e começaram a ameaçá-la. Ela, após 30 anos morando na comunidade,  teve que abandonar o local.

Hoje mesmo, estava sentada em um jardim, apreciando a paisagem, quando uma senhora ao meu lado puxou conversa comigo. Era Dona Maria que, com 83 anos, desabafou sobre as agressões que está sofrendo na família – pela filha e netos. Por conta do desemprego, a situação apertou, e ela colocou a turma para morar em seu apartamento.

Com o tempo, as coisas já não estavam bem –  brigas com a filha se tornaram  frequentes, o neto e a neta não lhe dirigem mais a palavra, fazem o jogo do silêncio – habitual nos dias atuais, mas tão devastador à pessoa idosa, que pertence a uma geração distinta, mais distanciada. Orientei que procurasse ajuda junto aos profissionais do serviço social da região onde mora. Ela chorou, e demonstrou receio. Levantei a hipótese da filha dela ter algum problema, como depressão, por exemplo, e lhe disse que, por outro lado, o mínimo que uma pessoa da idade dela precisa, dentro da própria casa, é de proteção. E que, deixar para lá, pode piorar ainda mais a situação. Lembrei que uma profissional da Assistência Social manteria sigilo, e conduziria a situação da melhor forma, orientando e amparando a todos. Ainda assim, ela parecia perdida. Fiz que prometesse que buscaria ajuda –  mas ela ainda estava assustada. Recordei-me da fala de Dona Brígida, e pedi a ela que, pelo menos, pensasse no assunto. Ainda, coloquei que não é só ela que tem esse problema –  há muitos outros idosos em igual situação, inclusive, alguns que nem mais podem ver os netos. Maria duvidou – Será?  Persisti – Sim!  Ela finalizou dizendo que seria melhor que Deus a levasse, logo. Lembrei da importância dela frequentar um grupo de pessoas da sua mesma faixa etária, para se socializar mais, e a incentivei à reflexão.

Este quadro que envolve esta parcela cada vez maior da população, é grave e precisa ser conduzido ao centro do debate político.”

 

Texto: Trajetórias em Poesias –  Blog,  Nãna Nãninha |  Erica Meira

 

(JA, Out17)