Eles eram jovens no auge das comunidades alternativas das décadas de 1960 e 1970. Agora, reúnem-se para um projeto neo-hippie: moradias coletivas de idosos.

Em São Paulo, um grupo faz encontros, há um ano, para tentar formar o primeiro 1cohousing1 do Brasil. São mais de 20 pessoas, a maioria entre 60 e 70 anos, atrás de uma opção que passa longe da ideia de asilos.

Das antigas experiências hippies, a nova proposta mantém os objetivos de fortalecer vínculos comunitários e proporcionar cuidado mútuo.

O que fica para trás é ‘o totalitarismo do coletivo, que anula a individualidade’, segundo a arquiteta Lilian Avivia Lubochinski, 68, integrante do grupo e estudiosa, desde os anos 1980, do ‘cohousing’ (que ela chama em português de ‘co-lares’).

No modelo em gestação, cada pessoa ou família tem sua própria casa e é convidada a participar de atividades com a vizinhança.

A preparação dura pelo menos três anos. Começa com a formação de um grupo com afinidades que queira morar em um mesmo local.

Em seguida, define-se onde e como será o espaço, até que ele seja construído e habitado. Pode ser uma vila, um condomínio de casas ou um prédio de apartamentos.

A arquitetura deve contemplar a acessibilidade, com portas largas e tomadas altas, por exemplo, e a prevenção de acidentes domésticos, no cuidado com a escolha do tipo de piso e instalação de barras de apoio.

É indispensável, ainda, uma boa área comum, que não pode ficar às moscas. Os moradores devem organizar eventos com regularidade, de refeições comunitárias a noites de karaokê, bingo, aulas de ioga ou debates sobre cinema e filosofia. Tudo depende do perfil da turma. ‘O objetivo é resolver a dor da solidão’, diz Lilian.

A convivência não inclui só eventos. Os vizinhos são incentivados a ajudar uns aos outros, como o ato de regar a planta de quem foi viajar ou levar comida para alguém doente.

‘Mas, claro, há um limite do que a comunidade dá conta. Um vizinho não será um cuidador. A intenção é que o espaço seja projetado para preservar a autonomia ao máximo e tornar as relações mais amigáveis.’

Há espaços assim na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. No Brasil, segundo a arquiteta, existem pessoas reunidas com a mesma intenção em diferentes cidades, como Brasília, Poços de Caldas (MG), Botucatu, Atibaia e São Paulo (SP). A iniciativa da capital paulista está na fase mais adiantada.

A publicitária Carla Elizabeth Dworecki, 68, integra o grupo paulistano e diz que, conforme o tempo passa, ‘os filhos vão tocar as suas vidas e temos que pensar na nova fase’.

Viúva, ela tem um filho de 32 anos e uma filha de 34, que está morando com ela temporariamente. É dona do ‘bed & breakfast’ Harmonia, hospedagem domiciliar que proporciona a convivência entre proprietários e hóspedes.

‘Sempre gostei de estar no meio de pessoas, de compartilhar’, fala. Por enquanto, diz estar em fase de namoro com o grupo. Se a relação evoluir para casamento, venderá a hospedagem para comprar o imóvel do ‘cohousing’.

Se optar pela nova vida, Carla poderá ter como vizinho o documentarista e diretor de fotografia Luís Villaça, 37, caçula do grupo. Ele, sua mulher e um outro participante são os únicos com menos de 50 anos.

Luís já havia se envolvido em outra tentativa de ‘cohousing’, que não foi para frente, com pessoas mais jovens. No novo teste, não vê a diferença de idade como um problema. ‘O que se busca é a qualidade dos relacionamentos, a solidariedade. E isso não tem idade’.

Texto: Laura Mattos

Imagem: Carla Dworecki, 68, que planeja para o seu futuro um sistema de ‘cohousing’ com amigos

 

(JA, Mai17)