A eterna top model em um ensaio de moda que mistura clássicos e peças contemporâneas

A top Christine Yufon desfilou para algumas das mais importantes referências do mundo da moda. Aqui, mistura os eternos clássicos de seu guarda-roupa com peças contemporâneas de estilistas brasileiros. Um resultado que só o tempo é capaz de trazer.

Sobre envelhecer bem
A chinesa Christine Yufon tem quase 90 anos e um container de histórias para contar. Casada com um francês, deixou a China um pouco antes de Mao Tsé-tung subir ao poder e descobriu, de uma hora para outra, que não poderia mais voltar para casa. Seu apartamento, móveis, lembranças e a coleção de arte chinesa antiga herdada do pai ficaram para trás. Chegou em São Paulo vinda da França no início da década de 50, com marido, filho pequeno e um barrigão de sete meses.

Aqui, se tornou a primeira modelo étnica brasileira e trabalhou por anos nas mais tradicionais casas de moda do país. Também foi modelo do estilista francês Jacques Heim, por quem abriu mão de um contrato com ninguém menos que Givenchy. Virou ideal de mulher elegante e abriu nos anos 60 sua escola de etiqueta e postura pessoal, que funciona a todo vapor até hoje.
Nos anos 80, começou a se interessar pela escultura e em pouco tempo teve suas peças expostas no Masp e também na China. No século seguinte, foi redescoberta pelo jovem estilista Dudu Bertholini, hoje seu amigo e stylist deste ensaio, que encomendou uma coleção de acessórios inspirados na escultura dela para um desfile da Neon. Mais uma vez, Christine voltou aos holofotes e perto dos 80 anos revelou uma nova faceta de sua vida profissional, a de designer de acessórios.

Muito se fala sobre o lado glamouroso da vida de madame Yufon. Revistas, sites, blogs de moda, todos querem contar os fatos da trajetória da mítica personagem sino-franco-brasileira que recusou Givenchy, ensinou etiqueta para as Safra, abriu uma loja bacanérrima nos anos 70, virou papisa dos acessórios com quase 80 anos e foi homenageada no São Paulo Fashion Week, em 2009. Mas, como ela mesma diz, “nada disso importa”. Segundo Christine Yufon, o que realmente importa é poder olhar para o outro com compaixão e amor. É saber que saímos todos do mesmo lugar – do útero de uma mulher –, vamos todos morrer e, por isso, devemos viver a vida plenamente, sempre olhando para o copo meio cheio – nunca meio vazio. O que importa é ter quase 90 anos e ser uma pessoa leve, feliz, querida pelos amigos – muitos deles com idade para ser seus netos –, rodeada pela família, ativa e espiritualizada. É saber que, por não se levar tão a sério, tem a liberdade de se reinventar a cada dia. E isso nenhum passado de conquistas materiais ou sociais consegue garantir.

Há décadas Christine Yufon vem tentando ensinar à sociedade brasileira e, há alguns anos, à turminha fashion que a verdadeira beleza vem de dentro para fora. Poucos conseguiram assimilar seus ensinamentos.

texto por Jéssica DeSilva  -Fotos Felipe Hellmeister

Fonte: revistatpm.uol.com.br