Maria Thereza Tonus, 80, anda para lá e para cá. Viúva e moradora da zona sul de São Paulo, costuma fazer tudo de metrô. Gosta especialmente de visitar exposições.

‘Recebo em casa [anúncios das programações] e vou’, conta ela, que ultimamente tem feito seus passeios sozinha, ‘porque nem todos [os amigos] têm o mesmo gosto’.

O curso de costura e bordado na juventude despertou o gosto por trabalhos manuais, e hoje ela faz obras em xilogravura –calcula já ter criados mais de 50– na Folhetaria do CCSP-Centro Cultural São Paulo, ateliê público voltado a trabalhos gráficos.

Frequenta o espaço desde a abertura, em 2012. Lá, discute as produções com colegas de bancada e tem auxílio de funcionários para funções mais pesadas, como girar a prensa. Já participou de exposições no próprio centro cultural e agora tem trabalhos na Casa da Xilogravura, em Campos do Jordão-SP.

Mas Maria Thereza é uma das poucas pessoas idosas na Folhetaria. A programação no CCSP, diz Adriane Bertini, diretora da Ação Cultural do instituto, não tem um recorte para pessoas mais velhas. A ideia é incluí-las nas atividades para todos os públicos.

Porém há ali, segundo Bertini, um atrativo para a terceira idade. A horta comunitária do CCSP, por exemplo, é coordenada por voluntários, todos mais velhos.

POUCOS

São poucos os centros culturais com diretrizes para o idoso. Alguns, como o CCBB, fazem visitas guiadas específicas para esse público.

Algo similar acontece no Oi Futuro, no Rio, que em 2017 recebeu cerca de 200 pessoas em grupos de idosos e pretende ampliar o programa para essa faixa etária.

Segundo Rafaela Zanete, coordenadora do programa educativo da instituição, as visitas variam de acordo com o material exposto e o grupo.

‘Mas há um interesse grande [desse público]. Eles costumam se reunir ao final para discutir o que viram’, conta ela. ‘E têm essa demanda grande por espaços de cultura e lazer. Muitos nos procuram, são grupos de turistas ou a turma da hidroginástica que quer fazer uma visita’.

Para Zanete, a falta de mobilidade nas cidades é o que mais dificulta a frequência de pessoas mais velhas em espaços culturais. ‘Temos a sorte de estarmos no largo do Machado [no Catete], uma região que tem muitos idosos’.

‘A gente procura alternar os horários das atividades, também para atender pessoas que tenham problema de mobilidade’, afirma Alessandra Sansão Périgo, da Gerência de Estudos de Programas Sociais do Sesc São Paulo.

A instituição é uma das poucas a ter uma extensa programação cultural voltada à terceira idade. Hoje, soma 260 mil idosos matriculados em atividades nas 36 unidades do Estado de São Paulo.

No projeto Cá Entre Nós, que envolve várias unidades, são os próprios frequentadores mais velhos que criam programações para pessoas da sua faixa etária. Já a mostra ‘Sentidos’, que reflete sobre o envelhecimento, coloca os idosos para atuar em trabalhos de teatro e dança.

‘A ideia é não só fazer essa reflexão sobre a velhice, mas mostrar que é natural idosos protagonizarem essas atividades’, afirma Périgo.

Ela explica que algumas programações do Sesc para todos os públicos recebem um recorte voltado ao envelhecimento e à longevidade.

É o caso da mostra ‘Sexualidade e Gênero’, que tem sessões de filmes voltadas a pessoas mais velhas, e seguidas de encontros com especialistas, que discorrem sobre sexualidade na terceira idade.

Em outubro, quando se comemora o Dia Internacional do Idoso, há uma semana com programação voltada a esse público. Fora projetos esporádicos. O Sesc Ipiranga, por exemplo, realiza até este mês a mostra ‘Finitudes’, com produções que discutem a morte e o envelhecimento.

Um dos trabalhos é a leitura cênica ‘Carta a D.’, inspirada no livro do filósofo André Gorz sobre a doença degenerativa de sua mulher, Dorine. O trabalho da Cia Hiato foi feito a partir de oficinas com idosos, que depois atuaram na produção.

Atividades que discorrem sobre a idade também devem marcar a grade do Itaú Cultural, que, a partir de 28/2/18, recebe uma mostra dedicada à bailarina e coreógrafa Angel Vianna, 89.  Além de espetáculos, ela dará aulas abertas.

 

Texto: Maria Luisa Barsanelli   |   FSP

Imagem:  Participantes da leitura cênica ‘Carta a D.’, trabalho da Cia Hiato feito no Sesc Ipiranga

 

(JA, Dez17)